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São Paulo - A inadimplência bancária do Brasil é baixa quando comparada com outros países ao redor do mundo, porém acima de vizinhos sul-americanos, como Chile, Argentina e Paraguai, apontam dados compilados pelo Banco Mundial.

Estatísticas do órgão referentes a 2015 mostram que o nível médio de calotes do País foi de 3,1%, contra 2,1% dos paraguaios, 2,0% dos chilenos e 1,9% dos argentinos.

Apesar de maior do que dos vizinhos, as perdas com empréstimos dos bancos brasileiros ficou bem abaixo dos líderes do ranking: Grécia (34,4%), Chipre (44,8%) e San Marino, com índice de 45,8% - ou seja, de cada R$ 100 emprestados, R$ 45,80 não são pagos pelos clientes.

Há um debate entre os economistas sobre se são os juros altos que causam inadimplência ou o avanço dos calotes que geram taxas mais salgadas. Na opinião de Silvio Paixão, economista da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), no caso do Brasil, a primeira premissa é a verdadeira.

"O custo da dívida é muito alto para o tomador de crédito. Se as taxas de juros do País fossem razoáveis, provavelmente a inadimplência seria menor", avaliou.

Os dados do Banco Mundial mostram que a taxa média de empréstimos do Brasil é a terceira maior do mundo (32%), atrás apenas dos países africanos Malawi (44,3%) e Madagascar (60%).

Quanto aos vizinhos sul-americanos, os juros mais próximos ao do País são da Argentina (24%) - Paraguai (21,2%) e Chile (8,1%) ficam mais de 10 pontos percentuais abaixo do Brasil.

"Não é possível ter zero de remuneração do dinheiro [empréstimo sem juros], pois os bancos precisam ganhar alguma coisa para fazer a intermediação. Mas também não se pode ter uma remuneração de mais de três vezes o custo do dinheiro", criticou Paixão.

No Brasil, ainda de acordo com o Banco Mundial, as instituições financeiras captam dinheiro a uma taxa média de 10%. Ou seja, a remuneração dos bancos ao emprestar dinheiro é 3,2 vezes maior que do seu gasto para tomar dinheiro emprestado.

Usando a mesma lógica, no Chile essa relação é de 2,1 vezes e na Argentina de 1,2 vez, de forma que o 'lucro' do banco com crédito (o chamado spread) também é menor.

Dos três vizinhos considerados na reportagem, somente o Paraguai passa o Brasil, com uma relação de 4,9 vezes, porém o resultado é proveniente de uma taxa de captação de 4,3% e uma taxa de empréstimo de 21,2%, ambas menores que a do País.

Perspectivas

O índice de inadimplência do Brasil vinha em uma trajetória de queda até desde 2011, passando de 3,5% naquele ano para 2,9% em 2014. Em 2015, o número voltou a crescer e Paixão disse que deve continuar subindo. "Todos os setores da economia estão com dificuldade e isso impacta na inadimplência", observou.

Segundo Miguel de Oliveira, diretor de estudos e pesquisas econômicas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), o cenário de crédito melhorou muito no Brasil nos últimos anos, porém, com o aumento do desemprego e da inflação e a queda da atividade econômica, o ambiente deve voltar a se deteriorar. "A inadimplência já esteve bem pior", comentou.

As estatísticas do Banco Mundial mostram que, em 1998, os calotes do País eram de 10,2% no Brasil.

Oliveira lembrou ainda que o mercado bancário no País é muito concentrado, o que mina a concorrência e a margem para negociar condições de crédito melhores.

Informações do Banco Central, relativas a setembro do ano passado, apontam que as cinco maiores instituições financeiras do País (Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa e Santander) detêm três quartos dos ativos do mercado bancário - excluídos os bancos de fomento.

Maiores caloteiros

Dos países com maior inadimplência, San Marino é um pequeno território encravado na Itália, com pouco mais de 30 mil habitantes. Já o Chipre é uma ilha do mar mediterrâneo, ao sul da Turquia, com cerca de 1,15 milhões de pessoas. A Grécia, por sua vez, atravessa uma crise econômica e financeira.