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O juro real prometido pelo título Tesouro IPCA (antiga NTN-B) com vencimento para agosto de 2024 saltou 1,02 ponto percentual em apenas dois meses, de 4,43% ao ano em 12 de abril último para 5,45% ao ano ontem.

Em um horizonte de tempo considerado relativamente curto, as taxas de títulos com vencimentos em 2035 e 2045, a taxa do Tesouro IPCA também oscilaram 1 ponto percentual, de 4,95% em 26 de janeiro passado, para 5,95% em 7 de junho último.

“É uma oscilação muito grande na curva de juros, está bem próxima de 6% ao ano. É [uma taxa] atrativa, mas com muita volatilidade pela frente”, alerta a estrategista-chefe da Mongeral Aegon Investimentos, Patricia Pereira.

Ela contou que nas últimas semanas, o mercado de títulos públicos passou por momentos de tensão. “No intraday [no mesmo dia] teve taxa que oscilou 90 pontos [0,90 ponto percentual], um pouco de irracionalidade”, descreveu a estrategista.

Na avaliação do head de produtos e renda fixa da Genial Investimentos, Marcelo Sande, os investidores pessoas físicas devem agir com cautela nesse momento. “Essa volatilidade deve permanecer por um tempo em todos os tipos de ativos [títulos de renda fixa, ações, dólar]”, avisa o profissional da Genial.

Ele lembrou que a greve dos caminhoneiros ocorrida em maio mostrou que o governo está enfraquecido. “A situação fiscal é complicada. E a questão eleitoral traz incertezas”, considera Marcelo Sande.

Patricia Pereira completou que o cenário externo também mudou nos últimos dois meses. “Antes [com o juro baixo no mercado internacional], havia fluxo para países emergentes, isso acabou. Agora, [o fluxo] sai dos emergentes e volta para os Estados Unidos.”

A expectativa global é que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) aumente 4 vezes o juro dos títulos do tesouro americano em 2018. “Isso afeta os emergentes, Argentina, Turquia, Brasil”, afirma.

O gerente comercial da corretora Easynvest, Fabio Macedo, contou que o aplicador pessoa física que estava posicionado em títulos prefixados ou de inflação percebe perdas pela marcação a mercado e questiona. “Nós fornecemos a informação para que ele [o investidor] tome a melhor decisão. Explicamos, que se ele manter o papel até o vencimento não há perdas”, diz.

Ao mesmo tempo, Macedo pontua que o momento atual favorece aportes via Tesouro Direto. “Para quem planeja uma aposentadoria para o longo prazo, trata-se de uma oportunidade [juro real de quase 6% ao ano]. E se é para o longo prazo, nem faz sentido, a pessoa física ficar olhando o valor todo dia”, diz o gerente.

Na prática, para a pessoa física que não suporta altos e baixos no valor de suas aplicações, a recomendação é o Tesouro Selic, título público federal com juros pós-fixados.

Questão de liquidez

Devido à volatilidade, desde 20 de maio, o Tesouro já suspendeu as negociações do programa de compra e venda de títulos públicos pela internet (Tesouro Direto) em seis ocasiões. “Isso causa problemas até para investidores profissionais. É comum esse público utilizar os títulos públicos como garantia para operações com ações e derivativos. Se o Tesouro Direto está suspenso, não consegue vender seus papéis para bancar as margens na bolsa”, conta o CEO do App Renda Fixa, Francis Wagner. Mesmo no caso do investidor de varejo que aplica em Selic, o transtorno também existe. Se a pessoa física, por exemplo, tem um compromisso (uma conta) para pagar terá dificuldade para resgatar seus recursos do Tesouro Direto em dias de suspensão dos negócios.

Quanto ao risco de crédito, vale lembrar que os títulos públicos federais são considerados os papéis mais seguros do mercado. A garantia é do Tesouro Nacional, ou seja, de todos contribuintes do País.

“A incerteza fiscal é muito grande. O cenário eleitoral é turvo. A menos que tenhamos um candidato de discurso reformista [liderando as pesquisas], o momento é de aversão ao risco”, conclui Patricia.