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A variação mais forte dos juros futuros de curto prazo continuará até abril de 2019. A ideia é que caso as expectativas quanto as eleições se concretizem, o mercado diminua os riscos das taxas e demonstre tendência de queda nos contratos com prazos até 2025.

Segundo dados da B3, os juros futuros com vencimento dentro do prazo de vigência do próximo governo mostraram queda no último mês.

A taxa do DI para 2020 caiu 0,76 ponto percentual (p.p.) ontem em relação ao último pregão de setembro (28/09), de 8,32% para 7,66%.

Para os juros futuros de 2021, o recuo foi de 1,02 p.p. na mesma relação, de 9,58% para 8,56%. Num horizonte maior, contratos que vencem em 2023 tiveram queda de 1,26 p.p. em igual comparação – de 11,12% para 10,13%.

Para os especialistas consultados pelo DCI, no entanto, a precificação do mercado ainda é mais relacionada à possível derrota do Partido dos Trabalhadores (PT) do que para a entrada do candidato Jair Bolsonaro (PSL) no governo brasileiro.

“O mercado abraçou o Bolsonaro e, conforme as pesquisas demonstrem uma maior possibilidade de que ele ganhe, a tendência é de que haja uma redução do risco, tendo um impacto direto nessas taxas”, explicou o economista da Guide Investimentos Victor Candido.

A convergência das taxas de juros futuras para as medianas projetadas pelos economistas do Relatório Focus do Banco Central (BC), porém, não deverá acontecer.

“Para isso acontecer – e considerando que o Bolsonaro entre – o governo deverá provar sua capacidade de trazer as reformas”, comenta Candido e reforça que, nesse sentido, o “estresse” no mercado deve continuar até abril de 2019.

“Só então conseguiremos ver e ter mais clareza sobre a agenda parlamentar. A taxa continua em um dígito, mas não tende a ficar flat”, reforça o economista-chefe da Órama, Alexandre Espírito Santo.

Para o economista-chefe da Spinelli Corretora, André Perfeito, a aceitação do candidato do PSL será mais “difícil”.

“Temos uma dinâmica de efeito manada muito particular e é o que tem feito a nossa bolsa ser a única no mundo a subir nos últimos cinco dias”, afirma o especialista.

Segundo ele, enquanto S&P recua 4,84% em dólar no mês, a CAC 40 parisiense cai 7,44% e a SSE chinesa retrai 8,52%, o Ibovespa mostra alta de 14,75% no período.

“Do ponto de vista macroeconômico, não faz sentido ficar comprado. A bolsa terá que realizar [os lucros] em algum momento”, diz Perfeito.

Ainda sob o ângulo doméstico, porém, o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, enxerga um “período de regozijo” no mercado.

“O mercado é pragmático nesse sentido e, conforme os informes econômicos do novo governo cheguem e cumpram com uma equipe bem preparada, devemos ter um momento de regozijo”, exemplifica.

“Mas para que a especulação dos últimos meses seja devolvida, tanto o mercado local quanto o externo precisam ser pesados”, complementa Vieira.

Olhos no cenário externo

De outro lado, os especialistas também consideram certo “exagero” na euforia das últimas semanas quanto ao mercado doméstico.

“Isso é preocupante porque a abertura de taxas no exterior não é só um movimento de mercado. Temos a questão da guerra comercial entre EUA e China, questões europeias com o Brexit e o grande embrólio quanto ao petróleo na Arábia Saudita. Tudo isso não pode ser ignorado e precisamos responder à esse estresse externo ainda neste ano”, opina Espírito Santo, da Órama.

Para o economista-chefe da Modalmais, Álvaro Bandeira, isso pode, inclusive afetar as taxas de longo prazo.

“Se o estresse internacional não amenizar e os investidores estrangeiros continuarem saindo dos países emergentes, teremos os juros de longo prazo subindo. Isso também se soma às expectativas de Selic [taxa básica de juros] e inflação subindo mais para frente”, explicou o especialista.

“Se os juros continuarem caindo, a bolsa fica mais atrativa, mas ainda é difícil capturar o fechamento da curva. Isso não é algo trivial e reflete bastante a incerteza que ainda vamos enfrentar”, conclui Candido, da Guide Investimentos.