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São Paulo - O crédito corporativo e os projetos de infraestrutura devem manter aquecido o mercado de securitização e fazer com que ele continue crescendo neste ano, mesmo com o cenário econômico adverso.

Segundo Carlos Eduardo Ferrari, sócio-fundador do escritório N,F&BC Advogados, no caso dos Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), que são lastreados, principalmente, em prestações de financiamentos ou aluguéis de imóveis, o cenário poderia ser ruim, tendo em vista o desaquecimento do mercado imobiliário e o aumento dos juros.

"No entanto, o CRI é um instrumento consolidado, utilizado em diversas modalidades, não só na incorporação imobiliária", explicou.

De acordo com ele, operações de loteamentos, galpões industriais, hotéis, condomínios e obras infraestrutura, entre outros, estão captando recursos por meio do instrumento financeiro.

"Não se encontra financiamento tradicional para esse tipo de operação", disse.

Dados da Cetip mostram que o estoque de CRI cresce em ritmo acelerado desde 2010. De abril de 2014 até o mês passado, o saldo do instrumento aumentou 16,9%, para R$ 57,56 bilhões.

Pedro Junqueira, sócio da Uqbar, empresa especializada em finanças estruturadas, apontou que os CRI também tem sido utilizados por bancos para cumprimento da exigibilidade de 65% dos recursos da poupança para o financiamento imobiliário - o Banco Central permite que os recebíveis cedidos à securitizadoras sejam computados na conta da exigibilidade.

"Em 2014, os CRI cresceram muito com os bancos cedendo os créditos para as securitizadoras. Esse ano, com a poupança secando, vai depender do que o banco quer manter no balanço e o que quer ceder", observou.

Segundo os especialistas, o possível aumento da inadimplência irá impactar o mercado securitizador, porém não afugentará os investidores. "Muito desses recebíveis possuem garantias [os imóveis], que passarão a ser executadas", afirmou Ferrari.

O advogado apontou que os números de imóveis tomados devem aumentar. "Quando esses imóveis vão a leilão, com os valores já trazidos a valor presente [ou seja, com os juros] eles geram receita para os investidores", explicou.

De acordo com ele, o processo extrajudicial para tomada do imóvel costuma demorar de 30 a 60 dias.

Agronegócio

Embora possua estoque bem menor que do CRI, os Certificados de Recebíveis do Agronegócio também crescem em ritmo considerável. De acordo com a Cetip, o saldo desse instrumento passou de R$ 1,26 bilhão para R$ 2,65 bilhões, alta de 108,9% na variação anual.

De acordo com Junqueira, da Uqbar, o leque de lastros do CRA é muito mais ampla que do CRI. "E o mercado [agronegócio] é muito grande, com uma participação importante no PIB", observou.

Diferentemente, do CRI, cujos recebíveis podem vir somente de empreendimentos imobiliários, no CRA o lastro pode estar em qualquer recebível originado de negócios entre produtores rurais, inclusive financiamento e empréstimos relacionados à produção.

Infraestrutura e FIDCs

Ferreira, do N,F&BC Advogados, afirmou que, apesar de as debêntures incentivadas de infraestrutura estarem despontando como o principal instrumento de captação para as obras relacionadas ao tema, as CRI também são um instrumento de financiamento.

"Isso passa inclusive por um desejo do governo [incentivo a obras de infraestrutura]. No caso dos CRI, eles podem ser usados para loteamentos ou condomínios industriais".

Junqueira apontou que os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) são outro instrumento, também dentro do setor de securitização, que podem ser usados para obras de infraestrutura.

"As concessionárias [de rodovias, entre outras] podem se financiar por meio do instrumento, por exemplo. O FIDC é um instrumento bastante desenvolvido", apontou.

Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que o patrimônio dos FIDC de Fomento Mercantil, usado pelas empresas de factoring, cresceram 30,3% no ano, até abril, para R$ 8,3 bilhões. O patrimônio dos FIDC Financeiros, por sua vez, caiu 52,6%, para R$ 7,2 bilhões e os de Agroindústria e Comércio caíram 8,28%, para R$ 39,8 bilhões. Os demais cresceram 36,7%.