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O volume de fintechs que apostarão em captar recursos estrangeiros e abrir empresas em territórios internacionais crescerá significativamente em 2019. Apesar da dificuldade das iniciativas no mercado nacional, porém, cerca de 20 fundos já investem no setor.

Para especialistas, a recente medida do Banco Central (BC) do último dia 30 de outubro, que permite 100% de aporte de capital estrangeiro em fintechs brasileiras é “apenas o começo”.

De acordo com o CFO do Guiabolso, Demetrios Christofidis, o mercado de fintechs tem olhado não apenas para a captação de capital e recursos humano no exterior, mas também para a própria internacionalização da empresa (preparo para iniciar uma operação fora do Brasil).

“No Guiabolso, por exemplo, já existe o pensamento de ir para fora, mas, por enquanto, o crescimento por aqui é mais interessante e até mesmo mais difícil do que partir para outros países”, afirmou o executivo.

A dificuldade, nesse sentido, vem não apenas na aversão ao risco de investidores brasileiros – o que dificulta o recebimento de aportes nacionais –, mas também em quesitos tributários, trabalhistas e até regulatórios.

“De modo geral, os fundos de venture capital globais não investem em empresas brasileiras porque não é simples. Além disso, temos um cenário competitivo aqui, não apenas pela falta de mão de obra qualificada mas também porque, muitas vezes, o próprio governo joga contra”, avalia o sócio-fundador e CEO da Mar Ventures, Alexandre Liuzzi.

A espera do mercado, portanto, é de maior diálogo com órgãos reguladores – como o BC, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e até mesmo a própria Superintendência de Seguros Privados (Susep) –, de maior atração de recursos estrangeiros e de uma crescente internacionalização no setor.

“Em 2019, veremos um fluxo maior de capital estrangeiro em investimentos nas fintechs brasileiras. Sinalizações importantes foram os recentes investimentos de empresas chinesas em brasileiras. A expectativa é positiva, as fintechs buscam crescer.”, disse o conselheiro da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs) Guilherme Horn.

“Com certeza, o volume de internacionalizações, inclusive, deve crescer significativamente no ano que vem” completou a CEO da Sterna Boutique de Internacionalização, Raquel Kibrit.

Vale da Morte

O contraponto, porém, gira em torno da necessidade de captar recursos no mercado nacional para, só então, ter condições o suficiente para abrir empresas em outros territórios ou atrair capital no exterior.

Os especialistas explicam que isso ocorre porque quando a internacionalização acontece “rápido demais”, a visão é de que “há uma perda de foco no mercado local”.

“O problema, porém, é que são poucos os fundos locais que fazem cheques acima de US$ 10 milhões. O verdadeiro vale da morte no Brasil é que é preciso estar com horizonte de profitability [rentabilidade] e IPO [do inglês, Oferta Pública de Ações], gerando caixa, EBITDA [do inglês, Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização]. É preciso uma estratégia bem forte”, diz Liuzzi, da Mar Ventures.

Já de acordo com o diretor de desenvolvimento de mercado da B3, Tiago Isaac, “o mercado de capitais é uma alternativa viável para que as empresas brasileiras consigam se beneficiar”, reiterando que os casos de sucesso não são apenas os de captação estrangeira (referindo-se aos IPOs da PagSeguro e da Stone).

“Desde o começo de 2017, o mercado brasileiro já teve mais de R$ 350 bilhões captados por empresas [entre ações e emissão de bonds e debêntures], que conseguem encontrar funding entre R$ 20 milhões e R$ 1 bilhão”, afirma o executivo.

Segundo dados da B3, dos processos de captação por ações, 29 foram no mercado brasileiro e apenas seis no exterior, por exemplo.

“É um mercado ativo e as empresas conseguem, sim, uma precificação relevante por aqui. Até o fim do ano, inclusive, teremos novidades e poderemos até ver alguns IPOs acontecendo”, completa.

Para o CEO da Adianta, Marco Camhaji, a regulamentação por parte do BC, inclusive, tem sido “muito importante nos últimos anos para a evolução do mercado” e as expectativas são de que a autoridade monetária continue com sua agenda de descentralização do sistema financeiro nacional.

“Ainda não temos certeza de quem comandará o BC em 2019, mas já temos muitas coisas boas para as fintechs. Acreditamos muito que o ano de vem será bom, mas é importante ficar de olho no mercado internacional”, conclui.