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A perspectiva de que a taxa básica de juros pós-fixada possa subir dos atuais 6,5% ao ano, para 8% ao ano em 2019, incentiva aportes de investidores institucionais (fundos) e de pessoas físicas em Tesouro Selic, o principal título público emitido pelo governo.

De acordo com dados divulgados ontem pelo Tesouro Nacional, a expansão do estoque em títulos públicos vinculados à taxa Selic aumentou em R$ 201 bilhões no ano, do volume de R$ 1,121 trilhão em dezembro de 2017, para R$ 1,322 trilhão no final do último mês.

Se descontada uma valorização nominal de 4,61% deste ano nesse estoque de títulos com taxa flutuante, a expansão líquida em Tesouro Selic é superior ao montante de R$ 150 bilhões.

“Por causa das incertezas [políticas], os investidores estão com muito receio de aplicações em prefixados. Neste aspecto, considerando que a expectativa é que a taxa Selic suba, vai compensar mais investir em pós-fixados”, afirma a economista do App Renda Fixa, Fernanda Fonseca.

De fato, a Pesquisa Focus divulgada ontem pelo Banco Central (BC) mostrou que os analistas e economistas consultados pelo levantamento apontam que a taxa Selic chegará a 8% em 2019 e se manterá neste patamar no horizonte de 2020 e 2021.

Se considerada que mesma pesquisa que a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficará controlada na faixa dos 4% ao ano a 4,25% ao ano, a aplicação em pós-fixados como o Tesouro Selic pagará retornos reais entre 3,75% e 4% ao ano. “A vantagem do Tesouro Selic é a liquidez diária, enquanto a marcação a mercado dos prefixados confunde muito a cabeça do investidor pessoa física”, diz Fernanda.

De acordo com os dados do Tesouro Nacional, os fundos de investimentos foram os principais compradores de Tesouro Selic em 2018. A participação percentual desses títulos pós-fixados entre os papéis públicos detidos pelos fundos cresceu de 60,7% em dezembro, para 65,2% em agosto.

“Desde aquela reunião do Copom [em 16 de maio] que decidiu não baixar a Selic para 6,25% ao ano, houve um reposicionamento dos fundos”, lembrou o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira.

Ele contou que os fundos aumentaram significativamente as posições em Tesouro Selic não só em carteiras de renda fixa de duração baixa e risco soberano, mas também em outras categorias. “Os multimercados [macro] também”, diz.

Em números até agosto, a participação dos gestores no estoque total da dívida doméstica até avançou, de 25,18% em dezembro (R$ 864,62 bilhões), para 26,28% em agosto passado (R$ 954,30 bilhões).

Os dados mais recentes da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) confirmam captações líquidas expressivas tanto na renda fixa conservadora, como na categoria de multimercados.

Até 18 de setembro último, as carteiras de renda fixa de duração baixa (curto prazo) e risco soberano (concentradas em títulos públicos) mostravam captação líquida de R$ 32 bilhões no ano, liderando entre as diferentes subcategorias de fundos de renda fixa.

No mesmo período, os multimercados macro exibiam captação líquida de R$ 21,5 bilhões, também bem superior a outras subcategorias consideradas atrativas como multimercados livre (R$ 10,1 bilhões) e de multimercados de investimento no exterior com R$ 9 bilhões em aportes.

Além da aplicação indireta por cotistas via fundos de investimentos, os aplicadores pessoas físicas que utilizam o programa de compra e venda de títulos públicos pela internet (Tesouro Direto) também voltaram a aportar mais recursos em pós-fixados.

Como exemplo, em dezembro do ano passado, esse público de varejo adquiriu, diretamente, R$ 468,4 milhões de papéis atrelados à Selic, com compras líquidas de R$ 52,2 milhões após resgates. Naquele mês, o Tesouro Direto registrou saída líquida de R$ 42,2 milhões em recursos.

Já no último mês, as compras diretas em Tesouro Selic atingiram R$ 668,3 milhões, sendo R$ 228,3 milhões de captação líquida neste título após resgates de R$ 440 milhões. Ao todo, o Tesouro Direto registrou captação positiva R$ 471,1 milhões no período. Ou seja, em termos comparativos, há mais aportes em títulos federais pós-fixados atualmente do que no final de 2017.

Rentabilidade passada

Quanto aos ganhos brutos, antes da cobrança do imposto de renda, o Tesouro Selic com vencimento em 2021 mostrou rentabilidade de 6,66% nos últimos 12 meses até ontem.

As carteiras de renda fixa de duração baixa e risco soberano registraram performance de 5,94% em 12 meses até 18 de setembro, enquanto os multimercados macro exibiram ganhos de 7,4% na mesma base de comparação.

Mas, como observam os economistas, essa performance é um retrato do passado, quando a taxa básica de juros esteve em baixa e em seu menor patamar da série histórica. Ao investidor pessoa física ou cotista de fundo que for aportar recursos no horizonte de um ano ou dois anos de permanência, o ganho será maior.

“O ideal é que a pessoa fique pelo menos dois anos na aplicação para pagar a menor alíquota do imposto de renda, que é de 15% sobre os ganhos”, diz Fernanda Fonseca. Tanto o Tesouro Selic como fundos DI e CDBs DI têm alíquotas maiores de IR no curto prazo.