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A sazonalidade do final do ano terá pouco impacto sobre o mercado de crédito. Com as empresas ainda “engasgadas financeiramente” e a baixa renda dos consumidores, a expectativa é que linhas de curto prazo e juros baixos sejam os destaques até dezembro.

Do lado dos consumidores, dados do Banco Central (BC) divulgados na última sexta-feira, apontam que a maior alta entre as linhas foi no cartão parcelado, que subiu 29,9%, de (R$ 3,209 bilhões para R$ 4,170 bilhões) em setembro deste ano contra igual mês de 2017, seguido por crédito pessoal, com alta de 20,8% (de R$ 18,779 bilhões para R$ 22,693 bilhões) na mesma relação.

De acordo com a economista-chefe da Coface, Patrícia Krause, as pessoas ainda esperam “a retomada econômica e um mercado de trabalho mais controlado”.

“De qualquer forma, não seria uma força tão grande, até porque as próprias projeções do PIB [Produto Interno Bruto] não são nada demais”, pondera a especialista e reforça que “o foco ainda é pagar as dívidas”.

“As expectativas são positivas, mas, por agora, os consumidores ainda vão se apoiar no 13º [salário] para pagar dívidas e tentar não se endividar”, diz.

Para o consultor independente Rafael Durer, a confiança pode aumentar um pouco a partir de hoje [com o resultado eleitoral], mas só retoma efetivamente quando a equipe econômica e as diretrizes do próximo governo estiverem claras.

“Tudo agora depende das ações do presidente eleito”, complementa o consultor.

Quanto a inadimplência, enquanto o crédito pessoal total cai 0,3 ponto percentual (p.p.), de 3,8% para 3,5% na relação setembro de 2017 contra o mesmo mês deste ano, os calotes no parcelado do cartão sobem 0,8 p.p. na mesma comparação, de 1,6% para 2,4%.

Os juros, porém, continuam em queda. Para o crédito pessoal total, o recuo foi de 3,5 p.p. (de 48,5% para 45% ao ano), enquanto o parcelado retraiu de 165,3% para 164,5% ao ano (- 0,8 p.p.) em igual relação.

“Para o consumidor, o impacto dos juros é pequeno e, por mais que haja perspectiva de que o consumo suba, ainda não será no tamanho esperado e necessário”, complementa o economista do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) Nelson de Souza.

Crédito corporativo

Já do lado do crédito corporativo, as concessões continuam com crescimento expressivo nas linhas de mais curto prazo, como é o caso do desconto de duplicatas e recebíveis – que avançou 28,1% em setembro frente igual período de 2017, de R$ 23,138 bilhões para R$ 29,651 bilhões – e da antecipação de faturas de cartão – que mostrou alta de 79,6% na mesma relação, de R$ 8,134 bilhões para R$ 14,609 bilhões.

“As empresas claramente tiraram um pouco o pé do freio. Mas o fato é que elas ainda estão engasgadas financeiramente e com o orçamento atrapalhado, voltado para as expectativas do novo governo”, avalia Souza, do Ibmec.

“Os varejistas têm pegado as linhas de prazos mais curtos para tentar driblar, de alguma forma, a dificuldade na tomada de crédito, que ainda está voltada apenas para empresas com score alto, o que explica a queda da inadimplência, por exemplo”, afirma Durer.

Os calotes totais das companhias, por exemplo, caíram de 3,3% em setembro de 2017, para 2,6% no mês passado.

Para Souza, mesmo que as coisas “comecem a andar” no segmento corporativo, porém, a cautela continua presente.

“Não adianta ficar bem para depois morrer na praia”, conclui Nelson de Souza.