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Depois de um ano de retração, a indústria de biscoitos, pães, massas e bolos no Brasil aposta na retomada do faturamento em 2018 e projeta um crescimento de 3% sobre os R$ 39,2 bilhões registrados em 2017. No entanto, o aumento dos preços do trigo pode limitar este avanço.

A expansão do faturamento deve refletir a esperada melhora da economia brasileira, com um leve recuo no número de pessoas desempregadas e a perspectiva de retomada do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de até 3% depois de dois anos de queda, estima o presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias, Pães e Bolos industrializados (Abimapi), Cláudio Zanão.

Embora a perspectiva seja positiva, este ainda é um cenário delicado. “A recuperação está acontecendo, mas de forma tímida. Os dados de melhora da economia são factíveis, mas não vão se refletir tão cedo no varejo”, projeta o dirigente.

Um ponto crítico é o preço do trigo, principal matéria-prima para essa indústria. Neste ano, os moinhos devem demandar entre 10 milhões e 11,5 milhões de toneladas do cereal.

Historicamente, a Argentina é o principal fornecedor de trigo para complementar a oferta brasileira. Porém, o país vizinho deve registrar uma quebra na produção do cereal, o que vem estimulando a alta dos preços.

“Nos últimos 30 dias, as cotações aumentaram US$ 15”, comenta o vice-presidente do Moinho Santa Clara e presidente do Sindicato da Indústria de Trigo do Estado de São Paulo (Sindustrigo), Christian Saigh.

Aliado à incerteza quanto à safra argentina, o próximo ciclo no Brasil – que deve ser definido entre abril e maio – deve chegar a 4,6 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), ante 4,2 milhões de toneladas na safra passada. Embora represente uma alta de 9,2%, a produção estimada pela companhia está aquém do volume produzido no País nos anos anteriores, que superou cinco milhões de toneladas.

Conforme Saigh, na região Sul, principal produtora de trigo, as indústrias devem ter entre 30 dias e 50 dias de estoques. “A safra passada já está quase toda vendida e o produto importado está ocupando esse espaço”, afirma.

Zanão reconhece que a tendência de preços é altista, mas acredita que esse aumento dos custos da matéria-prima não deve alterar a perspectiva de crescimento de receita do setor de massas. “Como consequência, deve ocorrer uma alta de preços ao consumidor final, mas de forma suave, para não desestimular o consumo.” Ele estima que o reajuste não deve passar do mês que vem, mas ainda não projeta de quanto deve ser o aumento.

Estratégia

Vender mais tem se mostrado o principal desafio do mercado de massas, que não deve ter aumento de volumes neste ano, a exemplo do que aconteceu em 2017, quando a queda foi de 3%, para 3,4 milhões de toneladas. Enquanto em bolos e massas houve retração tanto de faturamento quanto de volumes, o segmento de pães cresceu 0,46% em receita, mas recuou 4,5% em volumes.

Zanão argumenta que, mesmo com a queda do número de desempregados, uma fatia elevada da população deve continuar sem trabalho. “Não há nenhum fator que nos leve a crer na mudança desse cenário”, afirma o dirigente. Para este ano, a Euromonitor aposta em um recuo de 1,1% da produção de bolos e de 0,3% de biscoitos doces no País. A receita com as vendas de bolachas no varejo deve crescer apenas 0,8%, enquanto para bolos a expectativa é de 0,5% de queda.

Apenas para pães a projeção é de alta nos dois quesitos. O volume produzido deve aumentar 2,1%, enquanto a receita deve crescer 2,9% neste ano.

Segundo Zanão, a indústria terá que ser criativa para atrair o consumidor e mantê-lo disposto a gastar nessas circunstâncias. A aposta em embalagens mais econômicas – com foco em vendas nos chamados atacarejos – como forma de garantir a presença dos produtos na lista de compras dos consumidores deve persistir, assim como a oferta de novidades. “O brasileiro gosta de experimentar, exceto no segmento de massas, em que é mais tradicional e isso ajuda o consumo.”

Para o presidente da Abimapi, a indústria precisa buscar algo diferenciado, mas com os pés no chão e atendendo a nichos, mas sem exageros. “Às vezes não é uma questão financeira, mas de criatividade. A indústria tem que inovar para manter e conquistar mercado.”

No ano passado, uma das maiores empresas do setor, a M.Dias Branco, apostou em aumento da produção e na aquisição da concorrente Piraquê. A estratégia resultou em expansão de 1,6% do faturamento, para R$ 5,41 bilhões.

Na avaliação dele, movimentos como este não devem ser o foco das companhias em 2018. “As empresas não devem fazer grandes investimentos na recuperação de capacidade produtiva ou ampliação de unidades. Não é o momento de grandes aportes, mas de consolidar o que se tem”, avalia o presidente da Abimapi.