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O aporte em empresas nascentes (startups) disparou no primeiro trimestre de 2018, em comparação com iguais períodos de 2016 e 2017. O motivo é o desenvolvimento de um ecossistema que evita o “vale da morte” das iniciantes.

Segundo dados divulgados pelo relatório TTR, os fundos de venture capital estão aplicando mais recursos nas startups. O volume financeiro cresceu 137% nos três primeiros meses deste ano, para R$ 1,202 bilhão, na comparação com os R$ 506 milhões no mesmo trimestre de 2017; e alta de 116% em relação aos R$ 556 milhões obtidos em igual momento de 2016.

Outro levantamento, da Lavca, a Associação de Venture Capital da América Latina, já havia mostrado um crescimento de 207% dos aportes em 2017, para R$ 2,86 bilhões investidos, ante os R$ 960 milhões registrados em 2016. Enquanto o número de startups aceleradas havia aumentado de 64 para 113.

Na avaliação de executivos desse segmento entrevistados pelo DCI, a tendência de crescimento é positiva para os próximos anos, sobretudo, por causa do amadurecimento do ecossistema de sobrevivência das startups brasileiras, que agora permite diferentes tamanhos de aportes para as várias fases de necessidade de capital dessas empresas inovadoras.

“A mortalidade – em torno de 70% – tende a ser menor daqui para frente, o ecossistema não deixa a startup no vale da morte após já ter sido investida por anjos, mas ainda sem musculatura para receber um aporte maior de um fundo de investimento”, argumentou o CEO da OneMarket, Henrique Zanuzzo.

Na mesma linha, a CEO da MoObie, Tamy Lin, diz que visitou mercados desenvolvidos como Israel, Noruega, Suécia, Dinamarca e Finlândia, e considera que o ecossistema de inovação em São Paulo se desenvolveu nos últimos anos. “Não é como o Vale do Silício (EUA), mas é bem desenvolvido com vários pilares – empreendedores, aceleradoras, núcleos de pesquisa, governo, entidades e funding [recursos]”, afirmou.

Quanto a obtenção de aportes financeiros de investidores-anjos, capital semente e fundos de venture capital, Tamy Lin, diz que não vê problemas. “Temos investidores locais e estrangeiros com interesse em projetos inovadores. Falta uma melhor cultura empreendedora”, apontou a executiva

Zanuzzo completa que essa falta de cultura empreendedora também está mudando. “Hoje, é muito mais comum, estudantes de universidades querendo trabalhar em startups. E executivos de grandes corporações buscando conhecimento e inovação nas startups”, afirma.

O executivo também contou que, atualmente, há uma maior diversificação dos setores investidos. “No passado, o investimento era muito concentrado em startups de internet, agora vemos uma pulverização para diferentes áreas: agrotechs, fintechs, insuretechs, RHtechs”, afirmou.

Para o CEO da Duxx Investimentos, Daniel Matumoto, o cenário econômico no Brasil também está mais propício para a inovação. “Houve uma evolução do ecossistema. Temos uma estrutura de aceleradoras, capital-anjo, venture capital e se busca ampliar as áreas: tecnologia e internet, software, fintechs, e empresas que tenham inovação no modelo de negócios, ou seja, na forma como ela ataca um determinado mercado de maneira mais eficiente”, diz Matumoto.

Na visão do CEO da Tô Garantido, Felipe Cunha, o investimento em startups ainda é de alto risco. Mas, cada vez mais, as empresas conseguem atravessar o vale da morte e sobreviver. “Houve uma curva de aprendizado e, hoje, temos grandes fundos locais e internacionais entrando no setor e estão surgindo os primeiros unicórnios”, considerou Cunha.

O termo unicórnio é utilizado quando essas pequenas nascentes conseguem crescer de forma sustentável (e rápida) e serem avaliadas em mais de US$ 1 bilhão pelo mercado global.

Cunha contou, por exemplo, que além de capital próprio dos empreendedores, nas diferentes fases de crescimento do negócio surgem a necessidade de recursos: de anjos, pessoas físicas que aplicam entre R$ 100 mil e R$ 200 mil na empresa; de pool de anjos que reúnem juntos aportes entre R$ 500 mil a R$ 1 milhão; capital semente ou seed capital (ex. do BNDES); e na faixa de R$ 1 milhão a R$ 2 milhões por fundos de investimentos menores. “O horizonte de maturação de um bom negócio pode levar cinco, sete ou oito anos”, respondeu.

Projeto unicórnio

Segundo os entrevistados, o caminho até o primeiro bilhão exige talento e profissionalismo nas startups, pode se valer da criatividade, mas sem improvisos que podem representar o fechamento nos primeiros anos de vida. “Temos casos de sucesso global, com a 99 [o primeiro unicórnio brasileiro] e cases de muito destaque: Buscapé, Nubank, Ifood, Centauro”, exemplificou Henrique Zanuzzo.

A empresa que ele representa, a OneMarket – da área de alimentação saudável – alcançou o terceiro ano de existência. “Faturamos R$ 8 milhões no ano passado, e a previsão é de R$ 12 milhões para 2018”, diz.

Zanuzzo contou que a OneMarket recebeu dois aportes financeiros de investidores, o primeiro de R$ 1 milhão com seis meses de existência, e outro de R$ 2,1 milhões na virada de 2016 para 2017. No final de 2018, a empresa buscará um outro aporte de R$ 5 milhões. “Nosso modelo é de clube de assinatura, queremos democratizar a alimentação saudável. Hoje, é muito difícil encontrar o produto, e quando se acha, é caro para maior parte da população”, diz Zanuzzo sobre a demanda que a OneMarket pretende atender.

Felipe Cunha também contou que a corretora digital Tô Garantido busca chegar nas classes C e D com seguros massificados. Ele divulgou a linha de produtos Família Saudável e o pacote de seguro de vida, de acidentes pessoais, planos de internação hospitalar, assistência funeral, e a rede de prestadores médicos com consultas a partir de R$ 45 e descontos em medicamentos. “Temos uma alternativa mais econômica que planos de saúde”, argumentou.

Já a executiva Tamy Lin, contou que a MoObie é uma plataforma de compartilhamento de automóveis. “Estamos em São Paulo e outras 50 cidades pelo País, com 4 mil cadastros de carros e 70 mil usuários utilizando o serviço. No médio prazo, nosso objetivo é torna-se a maior plataforma de compartilhamento da América Latina”, diz.

O CEO, Daniel Matumoto, também divulgou projetos de captação. A Duxx Investimentos pretende montar um fundo de R$ 50 milhões para 15 a 20 startups ainda em 2018. O primeiro fundo de R$ 15 milhões investiu em nove empresas.