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Se o volume de fusões e aquisições no Brasil durante o primeiro trimestre evoluiu apenas 2% na comparação com o período em 2017, no setor de tecnologia da informação (TI), o salto no mesmo intervalo foi de 27,5%. Em três meses foram contabilizados 37 negócios, evidenciando um maior interesse de estrangeiros por ativos nacionais.

As informações são de balanço publicado ontem (24) pela PwC Brasil. Especificamente em março, segundo a consultoria, o volume total de fusões e aquisições caiu 8%, para 56 negócios – destes, 14 (ou um quarto) envolveram players de TI.

Se considerado o período entre janeiro e março, o setor foi responsável por 24,1% das 153 transações, contra 19,3% há um ano. No consolidado de 2017, as 132 transações em TI representaram 21% do total no País.

“O mercado brasileiro de TI é muito dinâmico e tem o maior número de transações, apesar de não ter necessariamente os maiores valores”, explicou o sócio da PwC Brasil, Rogerio Gollo – que vê uma “tendência de elevação” do volume total de transações, apesar do avanço tímido no início do ano.

Um dos pontos que traduziriam essa maior predisposição para negócios seria o aumento das aquisições de controle acionário frente outras modalidades de negócio, como a compra de participações minoritárias ou fusões: entre os 153 negócios celebrados no País, 103 se encaixam na categoria, em crescimento de interanual de 29%.

A tendência também foi verificada entre as empresas de tecnologia: se no primeiro trimestre do ano passado as aquisições eram 27,5% de todas as transações no setor, no mesmo período de 2017 a modalidade representou quase metade dos negócios (18, ou 48,6%).

“Essa retomada nas aquisições mostra empresas mais confiantes”, afirma Gollo. “Quando elas querem apenas conhecer o mercado ou não deixar uma oportunidade escapar, a opção é comprar percentuais menores”, completou.

A recuperação de indicadores macroeconômicos seria a principal causa para a maior confiança, ainda que “o momento político exija atenção”. “Fica o dilema de entre aproveitar a oportunidade agora ou esperar uma definição política e de repente pagar mais caro [no futuro]”, sinalizou o analista.

Estrangeiras

No caso do investimento oriundo de players estrangeiros, o setor de TI foi na contramão do mercado – onde verificou-se queda no volume de negócios (de 62 para 54) durante o primeiro trimestre.

Entre as empresas de tecnologia, o cenário foi completamente distinto: as transações mais que dobraram em um ano (de 7 para 15), com destaque para a aquisição da 99 pela chinesa DiDi Chuxing.

Fora a China, empresas da Argentina, Espanha, França, Reino Unido e Suíça também adquiriram ativos brasileiros do segmento, além de players alemães (com três negócios) e dos Estados Unidos (seis).

Já em abril, um movimento envolvendo a italiana Custom também foi divulgado: a estrangeira adquiriu 75% da Nitere, especializada em automação comercial e bancária. A intenção é desenvolver produtos como quiosques de autoatendimento para diversos setores.

“Não estamos aqui [no Brasil] apenas para economizar custos, mas porque acreditamos no mercado e no crescimento brasileiro no futuro próximo”, afirmou ao DCI o CEO da Custom, Carlo Stradi. “Nosso objetivo é que a Nitere represente 10% do grupo Custom nos próximos 3 anos”, complementou.

Fundos

Se o investimento estrangeiro nas empresas de TI cresceu em 2018, no caso do dinheiro oriundo do setor financeiro, o cenário foi oposto.

Há um ano, a maior parte dos negócios envolvendo o setor foi liderada por investidores como fundos de private equity, indicando um possível “novo ciclo de investimentos” na área: das 29 transações identificadas, 16 tinham esse perfil.

Já entre os 37 negócios celebrados até março deste ano, apenas 12 foram liderados por investidores financeiros – indicando redução de 25% frente queda de 23% no consolidado do País (31 transações no primeiro trimestre).

“Eles só tomam a decisão [de comprar] quando veem horizonte de saída [venda]. Muitos não estão vendo esse horizonte”, sinalizou Rogerio Gollo.

“O investidor financeiro ainda não está tão confiante quanto esperávamos que ele estivesse”, admitiu o consultor.

Por outro lado, a relevância dos chamados players estratégicos cresceu, em movimento classificado pelo sócio da PwC como uma busca por “market share, novos segmentos e complementação de portfólio”. Dos 37 acordos fechados até março, 25 tiveram esse perfil.

No quarto mês do ano, os novos negócios do gênero foram anunciados ao mercado. Entre eles, a aquisição da Único Sistemas e Consultoria pela Linx por R$ 16 milhões e a compra da Estatística Segura pela Stefanini Scala, coligada à Stefanini.

Ainda no primeiro trimestre, a mineira Siteware fez movimento semelhante ao adquirir a concorrente paulista Strategy Manager, também especializada em gestão de performance corporativa. “Ela oferece funcionalidades semelhantes às nossas, mas com viés onde nosso sistema estava engatinhando, que é a gestão de performance individual”, explicou o CEO e co-fundador da Siteware, Marcello Ladeira.

A empresa adquiriu 70% da Strategy Manager, realizando swap de ações com os 30% restantes. “A gente não parou e já iniciamos conversas com o próximo alvo”, afirmou Ladeira, que também deve analisar ativos de fora do País.

Diversificar as receitas também foi o objetivo da Locaweb Corp (unidade corporativa da Locaweb), que adquiriu a Cluster2Go há pouco mais de um mês; a intenção é atacar o mercado de nuvem híbrida.

“Foi uma aquisição bem estratégica. Viemos muito de infraestrutura e data center. Agora estamos virando a chave para a oferta de serviços”, afirmou o diretor-geral da Locaweb Corp, Alexandre Glikas. Após a conclusão do negócio (cujas conversas tomaram um ano), a empresa também se prepara para novas compras. “Estamos trabalhando com a ideia de aquisições. Neste ano, conseguimos reaquecer algumas conversas”, sinalizou Glikas.