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Num espaço de tempo de 15 meses, desde meados de outubro de 2016, o ciclo de baixa da taxa básica de juros (Selic) proporcionou um alívio para o Tesouro Nacional e beneficiou bancos, fundos de investimentos e aplicadores de ações.

Nesse período, a Selic caiu de 14,25% em outubro de 2016, para 6,75% ao ano em fevereiro de 2018, e caminha – segundo as expectativas do mercado (Pesquisa Focus) – para encerrar seu ciclo no patamar de 6,5% ao ano no próximo dia 21 de março, data de término da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC).

Graças a esse movimento, o custo médio da dívida pública, caiu da faixa de 13,7% em 2016, para 9,7% em 2017, e tende a ficar na faixa de 7% em 2018. Mesmo com esse alívio, o estoque de títulos públicos no mercado deve subir de R$ 3,4 trilhões (atuais) para até R$ 3,98 trilhões em dezembro, devido à falta de superávits nas contas do governo para abater juros.

Na avaliação de economistas e especialistas consultados pelo DCI, essa redução da Selic para o menor patamar da história recente do País ajuda na rolagem da dívida pública pelo Tesouro e já resultou em ganhos de curto prazo (um ano) para o mercado financeiro local.

“Sem dúvida, os bancos são os maiores beneficiados. As instituições financeiras estão pagando muito menos para captar recursos [em CDBs e na poupança, por exemplo], e aumentaram seus spreads [prêmios em crédito] ao não reduzirem os juros nos empréstimos para pessoas físicas e pequenas empresas”, afirmou o coordenador do curso de administração do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), Ricardo Balistiero.

De fato, o último levantamento da Associação Nacional dos Executivos de Finanças e de Contabilidade (Anefac) comprovou essa elevação dos spreads. Num exercício comparativo entre fevereiro de 2018 (Selic em 6,75%) com março de 2013, quando a taxa básica estava em 7,25% ao ano, mostrou uma elevação média de 45,73 pontos percentuais nos juros cobrados de empréstimos para pessoas físicas, e de alta de 19,5 pontos percentuais em modalidades de financiamentos para pessoas jurídicas (empresas).

“No médio e longo prazo, a tendência é essa redução dos juros chegar às pessoas físicas por causa da competição de fintechs e cooperativas de crédito”, acredita o professor de economia da Trevisan Escola de Negócios, Walter Franco Lopes.

Além dos bancos, o segmento (indústria) de fundos de investimentos também se beneficiou com o ciclo de baixa da Selic, por causa do posicionamento em títulos prefixados e de inflação. Dados do boletim do Tesouro, mostram que em 12 meses até 31 de janeiro de 2018, os títulos prefixados e de inflação pagaram taxas entre 14,44% e 17,88%, enquanto a inflação ficou abaixo de 3% no período. Esses papéis mais arriscados que o título público pós-fixado Tesouro Selic, representam boa parte das carteiras em renda fixa e multimercados.

Em números brutos, o patrimônio total de fundos aplicado em títulos públicos subiu de R$ 642 bilhões (22% do total da dívida doméstica) em outubro de 2016, para R$ 930 bilhões (27,3%) em janeiro de 2018. É um crescimento de 45% no período, ou um salto de R$ 288 bilhões em patrimônio, correspondente a uma elevação de participação de 5,3 pontos percentuais na dívida pública. “Essa ida mais recente [janeiro e fevereiro] para multimercados sinaliza uma busca por melhor remuneração”, aponta o professor de economia da Trevisan.

Na visão de Balistiero, do IMT, outro setor beneficiado com a queda dos juros foi o de aplicações em renda variável. “Na bolsa de valores é mais evidente [pela valorização das ações e a entrada de recursos]. A festa do juro alto acabou”, afirma o coordenador. Em 2018, o Ibovespa subiu 12,6% após uma alta de 26,8% em 2017.

Para o economista-chefe da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo, se a Selic ir para 6,5% ao ano beneficiará a todos. “As empresas tendem a investir mais quando o juro está baixo”, afirma. No aspecto mais prático, as grandes empresas brasileiras já estão colhendo frutos desse processo. O pagamento de juros em dívidas corporativas [debêntures e notas promissórias] atreladas a juros pós-fixados (DI e Selic) recuou, em média, 52,6%, desde outubro de 2016.

Expansão da dívida

Enquanto fundos de investimentos e planos de previdência privada sustentaram a expansão da dívida nesse ciclo de baixa da Selic, os estrangeiros reduziram sua exposição, de 14,9% em outubro de 2016 para 12,4% em janeiro último.

“A dívida do governo só aumenta e o juro diminui. Para o estrangeiro, o risco da economia brasileira não caiu tanto, e as taxas estão subindo lá fora [EUA], com risco bem menor”, explicou a professor de finanças do Insper, Juliana Inhasz.

Mas sem um ajuste nas contas públicas, a expectativa é que a taxa Selic retorne à faixa entre 7% a 8%. “Espera-se que os juros [básicos] voltem a subir em 2019 e 2020 para controlar a inflação”, prevê o professor de finanças do Labfin da Fundação Instituto de Administração (FIA), Marcos Piellusch. O professor ressalta que a Selic menor estimula a atividade econômica e reduz o ritmo de elevação da dívida do Tesouro. “Provoca um alívio no pagamento de juros.”