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Com a ascensão das novas tecnologias, a falta de transparência e ausência de um limite claro para o compartilhamento de dados poderão ser um desafio para as instituições financeiras. A perspectiva é de atuação mais firme e constante de órgãos reguladores.

As discussões ao redor do processo contra a rede social Facebook por uso abusivo de dados e a expectativa sobre a implementação do cadastro positivo no País trouxeram um olhar mais crítico para a abordagem das novas tecnologias de inteligência artificial, machine learning e uso de dados por parte das instituições financeiras.

“As instituições já fazem fortes investimentos para adotar essas novas tecnologias, mas o grande problema vem dos dois lados. Um é o fornecimento de dados por parte dos usuários e o outro é a falta de transparência no que é feito com essas informações”, explica o diretor de inteligência cibernética do Grupo New Space, Thiago Bordini.

Segundo o último relatório de tecnologia bancária feito pela consultoria Deloitte para a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), as transações por mobile banking avançaram 95,5% em 2016 contra o ano anterior, de 11,2 bilhões para 21,9 bilhões.

Para o vice-presidente de pesquisas da Gartner, Frank Buytendijk, a exigência por modelos digitais pelos consumidores, porém, também atinge as questões de ética e proporcionalidade sobre o que deve ou não ser compartilhado no sistema.

“Os bancos podem prever o quanto alguém terá de dinheiro na conta em determinado dia do mês, mas como usar esse conhecimento é a discussão”, avalia o executivo, ponderando que há um “nível de privacidade” que precisa ser respeitado.

“Há uma diferença entre dados de risco e informações sobre o cliente, e a proporção entre esses dois quesitos é a ética digital. No caso do cadastro positivo, por exemplo, o único compartilhamento necessário é o perfil de risco e de pagamentos”, completa.

Ao mesmo tempo que uma regulamentação específica para o controle de dados partilhados se faz necessária, no entanto, a renovação digital constante no sistema digital é um obstáculo.

“Por natureza, os órgãos reguladores acabam sendo intrusivos demais e esquecem que é preciso regulamentar o conceito em si e não como ele deve ser feito”, comenta o sócio-líder de TI para serviços financeiros da Deloitte, Paschoal Pipolo Baptista.

Ele acrescenta que, em um mercado concentrado como o brasileiro é preciso cuidado para não “pesar a mão” na regulação. “O caminho precisa ser de incentivo, até porque muito do que se regula sobre tecnologias fica obsoleto com o tempo”, afirma.

Segurança

Da outra ponta, discussões em torno da segurança necessária nesses processos também começam a despontar no setor.

“O sistema financeiro por si só se vende como algo seguro e as exigências são altíssimas nesse quesito. Mas ainda falta clareza ao consumidor sobre os termos de confidencialidade aos quais ele concorda”, diz o diretor executivo comercial da Embratel, Antônio João Filho.

Da parte bancária, por sua vez, o diretor de negócios digitais do Santander, Alexandre Zancani, reflete que a própria metodologia de trabalho do banco já mira a segurança.

“Adotamos os mais rígidos critérios e políticas, não só para proteger as informações dos clientes, mas para que nos sintamos protegidos em nossa essência. Zelamos pela privacidade absoluta”, declara.

“O mundo estará cada vez mais conectado e os clientes, mais exigentes. A tendência é que os bancos façam maior uso de inteligência artificial e tecnologias que facilitem a experiência”, conclui Zancani.