Publicado em

(Texto atualizado em 03/04 para correção de informação: Diego Lissoni é sócio e diretor de marketing da Biva e não Lossoni, como informado anteriormente. Segue abaixo a íntegra corrigida.)

Com mais recursos disponíveis, crédito voltado para médias empresas terá crescimento superior ao de empréstimos para micro, pequenas e grandes companhias. Com demora no repasse das taxas de juros, porém, companhias tendem a buscar alternativas.

O movimento vem puxado, principalmente, pela atual condição financeira dessas companhias que, menos abaladas pelos impactos da recessão econômica, acabam tendo mais acesso ao mercado de crédito.

“Muitas empresas se mantiveram adimplentes ou já estão em processo de ajustes no orçamento. Isso melhora o score da companhia e dá maior facilidade e melhores condições ao financiamento”, explica o CEO da Capital Empreendedor, Heitor Ono.

Ele pondera, porém, que do ponto de vista de juros, ainda há um alto custo para os negócios.

“De outro ângulo, se a demanda aumentou, o repasse ainda não chega na ponta, principalmente para esse público que, dificilmente, tem fortes garantias reais a oferecer”, complementa.

Apesar de a taxa básica de juros (Selic) ter caído de 14,25% – no seu ápice – para os atuais 6,5%, o custo dos financiamentos ainda mostra spreads – diferença entre o custo de captação e o de empréstimo – muito altos.

Os últimos dados do Banco Central apontam que os spreads para pessoas jurídicas ficaram em 11,1 pontos percentuais em fevereiro, com uma média de 17,9% de juros cobrados ao ano.

De acordo com o presidente da Desenvolve SP, Milton Luiz de Melo Santos, apesar da forte retração no saldo do sistema financeiro, “há uma preocupação cada vez mais forte em criar um ambiente favorável” à tomada de crédito por companhias.

Ainda segundo o BC o volume de recursos disponíveis para pessoas jurídicas ficou em R$ 1,403 trilhão em fevereiro passado, queda de 6,7% na comparação com igual mês do ano passado, quando era de R$ 1,504 trilhão.

“A recuperação das empresas ainda está em curso, mas já dá frutos e percebemos isso não apenas pelos números de crescimento, mas pela agenda dos governos federal e estaduais em aumentar a disponibilidade de recursos. Só no primeiro bimestre, por exemplo, os desembolsos da Desenvolve SP subiram 67% em relação ao mesmo período de 2017”, comenta Santos.

Ao mesmo tempo, porém, os especialistas contrapõem que as incertezas que rondam o cenário político e econômico do País ao longo de 2018 ainda podem influenciar a velocidade de retomada das empresas e, consequentemente, dos empréstimos.

Para o sócio da BizCapital, Francisco Ferreira, apesar de o último trimestre “claramente apresentar uma alta” na demanda por crédito, a “tensão política” que ainda paira no Brasil também pode afetar a melhora das empresas.

“Se não fosse um ano de eleição era claro o aumento significativo desse mercado, mas as incertezas trazem cautela por parte de credores e tomadores e podem retardar essa recuperação das médias empresas”, afirma.

Alternativas

Nesse sentido, alternativas de financiamento acabam se destacando no setor.

Segundo o diretor da Associação Nacional dos Participantes em Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (Anfidc), Alberto Gonçalves, principalmente para as empresas que ainda estão em dificuldades e não conseguem recursos bancários, os FIDCs acabam sendo uma forte opção.

“Por questões tanto de condições mais atrativas como pela maior agilidade em conseguir os recursos, muitas das empresas que acabam entrando em recuperação judicial veem no nosso mercado uma possibilidade bastante expressiva de crescimento”, ressalta.

Só de fevereiro de 2017 até fevereiro passado, dados da Anfidc apontam que o patrimônio líquido da indústria foi de R$ 11,5 bilhões para R$ 16,5 bilhões, aumento de 43%.

“As empresas que entram em recuperação judicial querem continuar vivendo e só precisam de um regime diferenciado para ultrapassar as dificuldades”, acrescenta Gonçalves.

O mesmo acontece com a Biva, fintech de crédito baseada no conceito peer to peer.

De acordo com os executivos da startup financeira, no atual ambiente de incertezas, o repasse “praticamente instantâneo” dos juros oferecidos pelo modelo facilita a escolha tanto de tomadores como por parte do próprio investidor.

“Apesar de não afetar muito as pequenas e médias companhias, o momento de dúvida que passamos é acompanhado de perto pelos empresários. Assim, o repasse quase automático dos juros acaba sendo um fator atrativo”, afirma o sócio e diretor de marketing da Biva, Diego Lissoni.

Com juros a partir de 2% para o empreendedor tomador e retorno a partir de 1,5% para o investidor, a expectativa da fintech é de crescer 8% o saldo de crédito ao longo de 2018.

“Principalmente no capital de giro, que se enquadra como um crédito livre, as expectativas são bastante positivas. Todo o crescimento é gradual e depende de fatores macroeconômicos, mas estamos otimistas”, complementa o sócio e gerente geral da Biva, Theodoro Prado.

Capital de giro

Na mesma linha, os executivos entrevistados pelo DCI dizem que apesar de o foco recente ainda estar em linhas de mais curto prazo – como antecipação de recebíveis, por exemplo –, as perspectivas são de que a demanda por capital de giro cresça no primeiro semestre.

“O capital de giro, que é o oxigênio que mantém uma empresa viva, sofreu muito nos últimos anos, o que acarretou uma redução drástica dos recursos ofertados pelos grandes bancos de varejo”, comenta Santos, da Desenvolve SP, mas considera as boas projeções para a linha.

“A perspectiva de crescimento na economia dará o combustível necessário para que a capacidade produtiva das empresas se expanda e, consequentemente, essa modalidade de crédito ganhará espaço no mercado”, afirma o presidente.

“A procura por investimento só deve vir depois das eleições, mas as empresas já começam a trocar dívidas e a liberar uma demanda reprimida importante para o mercado. Resta apenas saber o quanto esse cenário se sustentará ao longo deste ano, mas as sinalizações são boas para o segmento”, conclui Ono.