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O aprofundamento da crise argentina e a falta de competitividade da indústria brasileira podem intensificar o papel do Brasil de exportador de commodities. Mesmo redirecionando os embarques, não será possível compensar as perdas com o país vizinho.

“A queda das exportações para a Argentina não justifica o desempenho do Brasil. O problema é que não somos grandes exportadores de manufaturados e a indústria tem uma participação pequena no PIB”, avalia a pesquisadora da área de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/IBRE), Lia Valls.

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), as exportações totais do Brasil para Argentina caíram 15,1% em 2018. Já os embarques de industrializados somaram US$ 13,9 bilhões, recuo de US$ 3 bilhões na comparação com o ano anterior. O setor mais atingido foi o automotivo, com redução de 19,8% na mesma base.

O país membro do Mercosul foi o terceiro principal destino de industrializados do Brasil, ficando atrás somente da União Europeia e dos Estados Unidos. “Tivemos quedas muito expressivas, sobretudo em produtos de maior valor agregado, como automóveis e máquinas agrícolas”, diz o diretor do departamento de relações internacionais e comércio exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Thomaz Zanotto.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou em janeiro que o setor teve queda de 17,9% das exportações em 2018. Em função da situação econômica da Argentina, principal comprador dos veículos brasileiros, 2019 deve registrar desempenho negativo de 6,2% nos embarques.

O gerente de negociações internacionais da CNI, Fabrízio Panzini, conta que a perspectiva para 2019 ainda é de queda. “O cenário conservador é a manutenção das exportações para Argentina no nível do ano passado.”

O presidente do conselho administrativo da Associação Brasileira de Maquinas e Equipamentos (Abimaq), João Carlos Marchesan, considera que as expectativas para 2019 não são positivas na Argentina. “As projeções indicam nova queda do PIB e há outro fator de incerteza, as eleições. Neste cenário, devemos amargar mais um ano de fraco desempenho das vendas de máquinas àquele mercado”, pondera.

O dirigente aponta que, em 2018, as exportações do setor para o país vizinho caíram 31% em relação ao ano anterior. “A crise na Argentina refletiu de forma importante. Em 2017, as vendas foram de US$ 1,4 bilhão, ou 15,3% do total das exportações do setor e, em 2018, caiu para US$ 960 milhões, apenas 9,9% do total dos embarques de máquinas.”

Marchesan assinala que a Argentina é o segundo maior destino das exportações de bens de capital mecânicos brasileiros, atrás dos EUA.

Parceiro insubstituível

Zanotto não acredita ser possível recuperar todas essas perdas com outros mercados no curto prazo. “É importante ter boas relações com outros países da América Latina, especialmente o México, mas não acredito que isso possa ser compensado redirecionando os embarques. A Argentina é um parceiro muito importante.” Ele ressalta que mesmo nesse cenário de queda, o Brasil obteve superávit na balança comercial com o país vizinho.

Lia aponta, porém, que o Brasil não consegue diversificar o destino das exportações de manufaturados pela falta de competitividade da indústria nacional. “Depende de melhorar nossa produtividade, a concorrência é muito acirrada em outros mercados e esse tipo de exportação está muito concentrado na Argentina.”

Panzini entende que a integração entre as cadeias produtivas dos dois países, especialmente na indústria automotiva, torna o mercado argentino insubstituível. “Não dá para abrir mão da Argentina. Se o país voltar a crescer em 2020, a demanda volta, pois sempre vai ser um parceiro importante.”

Ele afirma que, em função da melhora econômica do Brasil, há tendência de crescimento das importações da Argentina. “Embora de forma lenta, o País está em retomada, o que gera aumento de demanda e os argentinos devem exportar mais”, esclarece.

Lia destaca que o possível acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, atualmente em negociação, não deve ter grandes impactos nas exportações de manufaturados. “Uma vez firmado, é difícil que traga algum tipo de facilidade para a indústria, pois as tarifas não são altas. As barreiras são mais significativas nos produtos agrícolas”, pondera.