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O cenário de desaceleração da economia global deve impactar negativamente a demanda do mercado aeronáutico – principalmente na aviação comercial – e dificultar uma recuperação da Embraer. Em 2018, a empresa registrou o primeiro prejuízo em mais de 20 anos.

“O mercado de aviação é bastante suscetível à atividade econômica mundial, que não traz resultados tão animadores. Este não será um ano que trará grandes perspectivas para a demanda de novas aeronaves”, avalia o professor de economia da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), Orlando Assunção Fernandes.

A Embraer registrou prejuízo líquido de R$ 669 milhões no ano passado, recuo de 179% sobre o lucro de R$ 850,7 milhões alcançado em 2017. Em comunicado, a empresa atribuiu o desempenho econômico-financeiro às condições do mercado global de jatos executivos e ao foco na melhoria da rentabilidade e preservação de preços.

Para Fernandes, esse cenário mundial está bastante relacionado aos movimentos protecionistas e acirramento comercial entre grandes potências, como Estados Unidos e China. “Isso tem levado a uma revisão das projeções de crescimento econômico. Um sinal disso ocorreu na última semana, quando o Banco Central Europeu manteve as principais taxas de juros em patamares mínimos.”

Ele explica que esse desaquecimento econômico reduz o movimento de viagens aéreas e, por consequência, a demanda por novos jatos. “Dentro desse cenário, não vejo um ano de grande agitação para as fabricantes do setor.”

A Embraer destacou que o recente lançamento dos novos jatos executivos no segmento médio, que iniciarão entregas em 2019, levou a companhia “a uma abordagem mais cautelosa para as entregas de jatos executivos em 2018”. Foram entregues 91 no período, número inferior à previsão inicial de 105 a 125.

Em 2018, a Embraer entregou um total de 192 aeronaves, quantidade inferior às 217 do ano anterior. “Aliado à desvalorização de 15% do real no período, gerou receita líquida de R$ 18,72 bilhões, abaixo das estimativas da empresa, porém em linha com os R$ 18,77 bilhões de 2017”, assinalou o comunicado da empresa.

Outro fator de impacto foi a revisão da base de custos do KC-390, ocorrida no segundo trimestre de 2018, em decorrência do incidente com o protótipo ocorrido em maio, afetando negativamente a receita do segmento de defesa.

Boeing

Para Fernandes, o resultado negativo não deve trazer impacto na negociação com a Boeing. “Essa joint venture já era pensada muito antes. O interesse da norte-americana é bem específico em ampliar seu porfólio no segmento de jatos de porte médio e ela prefere investir uma empresa que já possui esse know-how em vez de fazer todo o desenvolvimento”, destacou.

Ele considera que o prejuízo pode reforçar o argumento para dissuadir as vozes contrárias à parceria. “Pode ser um motivo adicional para mostrar a necessidade da Embraer àqueles que se opõem, especialmente pela preocupação com o segmento de defesa.”

Em teleconferência, o vice-presidente financeiro da Embraer, Nelson Salgado, disse que os aviões militares Super Tucano poderão fazer parte da parceria na área de defesa. “A parceria não está limitada ao KC-390. Não existe restrição para o Super Tucano.”