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Tema recorrente nos debates eleitorais, a segurança pública traz um novo desafio em 2018: a expansão do crime organizado. Maior facção do País, o Primeiro Comando da Capital (PCC) aumentou em 113% o seu número de membros desde 2014, segundo apuração do Ministério Público.

Para enfrentar o problema, candidatos como Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT) voltam a citar medidas genéricas, como a ampliação do investimento e a desburocratização.

Já Geraldo Alckmin (PSDB) e Jair Bolsonaro (PSL) repetem a defesa ao encarceramento como meio para enfraquecer o crime organizado.

Durante a gestão de Alckmin como governador de São Paulo, o número de presos no estado disparou, superando os 200 mil. No mesmo período, o PCC se consolidou como a facção mais poderosa do País.

Para Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias, autores do livro “A Guerra: A Ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil”, o aumento do número de detentos foi o combustível para o aumento da facção.

Em conversa com a reportagem do DCI, o pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP e a professora da Universidade Federal do ABC (UFABC) disseram que o presidente eleito no final deste ano não poderá virar as costas para as facções criminosas, e terá que ir além de argumentos populistas para enfrentá-las.

Na visão de Bruno, a resposta a esse problema exigirá uma atenção maior do Executivo federal, que normalmente deixa as questões de segurança pública para os governos estaduais.

Entre as ações necessárias para lidar com grupos como PCC, Comando Vermelho (CV) e Família do Norte (FDN), o especialista destacou a necessidade de uma ampliação do investimento em inteligência nas polícias. Isso para que os agentes públicos “entendam” melhor o funcionamento das facções e possam encontrar formas de fragilizá-las economicamente.

“É necessário saber o caminho do dinheiro do tráfico de drogas, que é a principal fonte de financiamento [desses grupos]. A partir daí, será possível usar medidas como o bloqueio de contas, assim como acontece na [Operação] Lava Jato, para enfraquecer os traficantes.”

Bruno também defendeu a integração entre as polícias federal, civil e militar, proposta que costuma ser citada por Alckmin, Ciro e Marina Silva.

A aposta no confronto armado, pelo contrário, foi criticada pelos entrevistados. “A intervenção militar foi a grande resposta do [Michel] Temer à violência, e deu em quê?”, perguntou Camila, que é professora da Universidade Federal do ABC. Ela mesma respondeu em seguida. “O governo federal está jogando fora bilhões de reais para manter o Exército no Rio de Janeiro e os índices de violência pioraram.”

De acordo com o serviço Fogo Cruzado, que mapeia as ocorrências em território fluminense, 2.309 tiroteios aconteceram na área metropolitana do Rio nos três meses seguintes à intervenção, uma alta de 86% em relação ao período entre fevereiro e maio do ano passado.

Projetos citados com frequência, a facilitação da compra de armas e a privatização das cadeias foram criticadas por Camila. “São mudanças que interessam a algumas empresas e aos políticos financiados por elas”. Para a professora, o quadro de violência nos Estados Unidos, que adota essas medidas, é uma das evidências de que essas propostas não são uma boa ideia para o Brasil. “Um país [EUA] com mais de 2 milhões de presos não pode ser considerado um bom modelo.”

Presos no controle

Fundado em 1993 na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, em São Paulo, o PCC se espalhou rapidamente pelas prisões paulistas. “A facção adotou um discurso pela união dos detentos contra o sistema. Foi uma ideia que atraiu muita gente”, contou Bruno.

Os criadores do PCC defendiam que, ao invés de se matar nas cadeias, os presos deveriam trabalhar juntos contra o Estado, colocado como o “verdadeiro inimigo” nas cadeias.

De acordo com os entrevistados, a “presença violenta” do setor público em regiões periféricas do País colaborou para que essa retórica ganhasse força.

“O acesso à educação e à saúde é muito limitado, e, ao mesmo tempo, a população mais pobre é criminalizada”, afirmou Bruno. Um dos traços dessa criminalização, disse ele, é o elevado número de pessoas presas em flagrante com pequenas quantidades de droga na periferia. “Não estamos prendendo os grandes traficantes, estamos enchendo as prisões com as pessoas erradas.”

Jovens negros vindos de família de baixa renda são a maioria entre as centenas de milhares de brasileiros que foram colocados atrás das grades durante as últimas décadas. “A atuação do Estado está formando homens-bomba, que preferem morrer antes dos 25 anos a ser humilhados até os 80 [anos]”, afirmou Bruno.

Entre 1993 e 2016, o número de pessoas presas no País saltou de pouco mais de 100 mil para quase 750 mil, segundo dados do Ministério da Justiça. Assim, a população carcerária brasileira superou a russa, ficando abaixo só das de China e EUA.

O PCC acompanhou o avanço dos presídios. Hoje, a facção conta com quase 30 mil membros, dentro e fora das cadeias. Além do domínio em São Paulo, onde o grupo inclusive julga pessoas acusadas de crimes na periferia, o “partido” passou a ter representantes em todos os estados do País.

O DCI questionou repetidas vezes a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP) sobre os pontos levantados pelos especialistas. Em nota, o órgão público destacou a prisão de 60 mil criminosos nos últimos dois anos, parte do “trabalho das polícias Civil e Militar no combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas”.

A SSP também citou as recentes operações Ethos e Echelon, em que mais de 100 pessoas suspeitas de ligação com o crime organizado foram presas. “Além disso, o trabalho policial possibilitou que em 2017 e 2018 fossem apreendidas mais de 280 toneladas de drogas e mais de 22.500 armas de fogo”, acrescentou a Secretaria.