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A perspectiva do mercado é de que a fusão da Boeing com a Embraer – cuja joint venture é estimada em US$ 5,2 bilhões – deva receber o aval do governo logo no início do mandato de Jair Bolsonaro. Para especialistas, a exclusão da divisão de defesa do negócio facilitou a aprovação pelo novo presidente da República.

“Havia o temor de que uma posição nacionalista pudesse intervir na questão e impedir o negócio. Com a aprovação da venda apenas da parte comercial, os interesses dos militares ficaram resguardados e não parece haver nenhum entrave”, avalia o professor do curso de Relações Internacionais do Ibmec-RJ, Marcio Fortes.

Nesta segunda-feira (17), Embraer e Boeing acertaram os termos da venda do controle da divisão de aviação comercial da empresa brasileira. O acordo depende do aval do governo, que detém poder de veto sobre a negociação. “A plataforma eleitoral de Bolsonaro e o discurso de sua equipe econômica incluem a modernização de empresas importantes e privatização de estatais. A Embraer entra nesse escopo”, aponta o economista-chefe da DMI Group, Daniel Xavier. Ao longo da campanha, Bolsonaro e seu vice, Hamilton Mourão, fizeram declarações favoráveis ao negócio.

A joint venture terá participação de 80% da Boeing e 20% da Embraer. “Após concluída a transação, a joint venture da aviação comercial será liderada por uma equipe de executivos sediada no Brasil, incluindo um presidente e CEO. A Boeing terá o controle operacional e de gestão da nova empresa, que responderá diretamente a Dennis Muilenburg, presidente e CEO da Boeing. A Embraer terá poder de decisão para alguns temas estratégicos, como a transferência das operações do Brasil”, diz fato relevante conjunto das empresas.

No final de 2017, o presidente Michel Temer se opôs a possível compra da Embraer pela Boeing, em razão da tecnologia transferida pela empresa sueca Saab ao Brasil no segmento de defesa. A solução encontrada foi criar uma nova companhia que apenas envolvesse a operação comercial da fabricante brasileira. “Havia o receio que a tecnologia sueca passasse para os americanos. A parte de defesa fica separada e a Embraer deve continuar produzindo caças em separado”, destaca Fortes. Xavier acredita que a empresa deve seguir buscando parcerias para desenvolver a área não comercial. “A ideia é continuar atuando nesse segmento de defesa e produzindo caças como o KC-390.”

Concorrência fortalecida

O analista da Spinelli, Álvaro Frasson, afirma que o acordo é positivo e necessário para Embraer seguir competitiva globalmente. “O mercado está se consolidando no mundo, com a Bombardier e a Airbus se juntando no segmento em que a Embraer é mais forte. Isso a obrigou a se associar com uma empresa grande.”

Ele também destaca que o valor divulgado é superior ao estimado no meio do ano. “Se falava em US$ 3,8 bilhões pelos 80% da brasileira e chegou a US$ 4,2 bilhões. Essa diferença refletiu inclusive no valor de mercado da empresa.” As ações da Embraer fecharam o pregão da Bolsa (B3) desta segunda-feira em alta de 2,5%.

Xavier também vê a importância da fusão no contexto global, incluindo avanços da estatal chinesa Comac, que pretende fabricar aeronaves com preços muito inferiores aos praticados pelos concorrentes. Em 2017, o jato Comac C919, primeiro avião comercial desenvolvido inteiramente na China, fez seu primeiro voo de teste. O mercado asiático é relevante para a Embraer, que produziu aviões comerciais na China por meio de joint venture. “A Embraer é um player global, mas é importante para qualquer empresa ganhar escala, mais mercados e elevar a receita para se preparar para enfrentar a concorrência.”