Publicado em

Ainda em uma etapa frágil de recuperação, a indústria brasileira enfrenta dificuldades para recompor preços e melhorar sua rentabilidade. Enquanto a capacidade ociosa não for plenamente preenchida, a expectativa é que as empresas do setor continuem absorvendo parte do aumento de custos da atividade.

Nesta quarta-feira (30), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) reportou que o Índice de Preços ao Produtor (IPP) apresentou alta de 9,8% em 2018, o maior fechamento desde o início da série histórica, que tem cinco anos. O IPP mede a variação dos preços dos produtos na “porta das fábricas”, sem impostos e frete, de 24 atividades das indústrias extrativas e de transformação do Brasil.

Para o gerente do índice no IBGE, Manuel Campos, a valorização de quase 33% do dólar sobre o real em um ano (até setembro de 2018) contribuiu para elevar os preços dos produtos exportados.

Para o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rafael Cagnin, apesar do ambiente mais propício para a acomodação do aumento de custos, a falta de vigor da atividade industrial pode impedir o repasse de forma integral. “O ano de 2019 ainda é incerto. Apesar do otimismo em relação à retomada da economia, isso não é suficiente para um aumento significativo dos investimentos. É preciso que as promessas do novo governo se concretizem para termos um horizonte mais claro”, avalia o especialista.

Ele afirma que a demanda doméstica demonstra sinais de retomada, mas ainda insuficiente para reduzir o nível de ociosidade da indústria. Ao mesmo tempo, no mercado internacional, a desaceleração da economia global deve contribuir para o cenário de incertezas. “No front externo, a demanda não deve ser tão favorável. Uma nova etapa no mercado internacional, com uma escalada das tensões comerciais – encabeçadas por EUA e China – aumenta a nebulosidade para a indústria brasileira”, acrescenta.

Extrativa

Segundo o balanço do IBGE, os preços ao produtor no quarto trimestre foram amplamente impactados pelo recuo das cotações do barril de petróleo, o que acaba influenciando segmentos importantes da indústria extrativista.

Somente em dezembro, este setor apresentou queda de preços pelo terceiro mês seguido. A retração sobre novembro (-8,13%) foi a segunda maior entre os setores da indústria.

A atividade também exerceu a segunda maior influência negativa (-0,39 pontos percentuais) em todos os seus produtos pesquisados, exceto “minérios de cobre”, influenciaram negativamente a variação mensal, com destaque para “óleos brutos de petróleo.”

A entidade informa que, mesmo com o resultado mensal da indústria extrativista, a variação acumulada permaneceu positiva (26,58%) e acima das demais atividades pesquisadas. O setor também se destacou entre as maiores influências no acumulado do ano.

Já no setor de alimentos, Campos aponta que os preços tiveram um aumento médio em 2018 de 8,23%, após queda de 7,3% no ano anterior.

Perspectivas

Cagnin, do Iedi, vê o cenário para 2019 com cautela. “Estamos saindo da crise e os mercados sofreram muito. Ao mesmo tempo que houve um corte drástico da demanda, o aumento de custos corroeu a lucratividade das empresas”, avalia. “Ainda há comprometimento da saúde financeira das indústrias e o cenário só deve mudar quando a retomada da economia for mais vigorosa.”