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As vendas do 1º semestre decepcionaram a indústria calçadista voltada para o mercado interno. A greve dos caminhoneiros adiou novas compras somente para depois do Dia dos Pais e resta agora aos fabricantes tentar garantir ao menos um desempenho positivo para 2018.

“O atraso nas entregas afetou as vendas para o Dia dos Namorados e até para o Dia dos Pais. Perspectiva de melhora só depois de setembro, com a redução dos estoques e a demanda de final de ano”, afirma a gerente-geral da Amarok, Janaína do Nascimento. A empresa de Franca (SP) teve crescimento de 5% do faturamento no ano passado e esperava um 2018 melhor. “Chegamos a projetar expansão de 30%, mas o consumo não foi no nível esperado. Alguns clientes do varejo estão fazendo pedido para pagar só no próximo ano”, revela.

Com foco em calçados masculinos, a Amarok fabrica 1,2 mil pares por dia, mas teve problemas de produção durante a greve. “Faltou matéria-prima na fábrica. Toda a atividade do polo de Franca foi prejudicada”, conta a gerente-geral.

O sócio-diretor da Duda Calçados, Alex Almeida, declara que a perspectiva de crescer 20% neste ano foi reduzida para uma estagnação. “Nos programamos para resultados bem melhores. O varejo ficou aquém da expectativa”. Com planta em Conceição do Coité (BA), a fabricante de calçados femininos também reclama dos impactos da paralisação dos caminhoneiros. “Ainda nos afeta, a matéria-prima vem de fornecedores de várias regiões. O tabelamento do frete também dificulta, não permite barganha”, lamenta Almeida, que espera reação no 2º semestre. “Geralmente é um período melhor, não tem tantas paradas na produção”.

O representante comercial da Randall, Marco Aurélio Silva Trad, também aponta perspectiva de igualar o resultado de 2017. “O consumo está ruim em todas as regiões. Quem não diminuiu, ficou igual.” Produtora de calçados masculinos e femininos, a empresa tem sede em São Gonçalo do Pará (MG).

“O mercado feminino sempre teve um mercado maior e vende mais. Esperamos melhora com a demanda de fim de ano”, projeta Trad. O diretor-comercial da Zadora, Edmilson Santos, destaca que a inadimplência do varejo está prejudicando a produção. “Clientes que eram bons pagadores começaram a atrasar. Às vezes, deixamos de produzir para não correr o risco desse prejuízo.”

A microempresa de Sapiranga (RS) produz 300 a 350 pares por dia, mas espera resultados melhores no verão. “Nosso foco são sandálias rasteirinhas para o público feminino. No verão, chegamos a fabricar mil pares por dia. Esperamos recuperar as vendas perdidas no 1º semestre e crescer em 2019”, afirma Santos.

O gestor comercial da Radamés, Fernando Santoro, percebe uma diminuição nos lançamentos das grandes marcas. “Produzimos calçados de couro masculino por demanda dessas marcas, que costumavam renovar os modelos com frequência, mas o varejo está muito lento.” Ele acredita que a melhora no 2º semestre será apenas orgânica. “A produção sempre aumenta de 15% a 25% entre outubro e dezembro, pela demanda de fim de ano, mas a economia não vai melhorar”.

Apostas para crescer

Almeida relata que a Duda Calçados está expandindo seus canais de vendas. “Atendemos todos os estados do Nordeste e agora temos uma equipe de negócios em São Paulo.”

Janaina conta que a Amarok aposta em linhas econômicas. “O lojista quer preço bom. O consumidor está com o poder aquisitivo baixo.” O CEO da Usaflex, Sérgio Bocayuva, afirma que o canal multimarcas caiu cerca de 15% no 1° semestre. “Buscamos agregar valor com serviços ao varejo para não ter esses resultados ruins. Ainda assim, teremos uma queda de 5% a 6% nesse canal.”

O executivo não faz projeção de crescimento para a empresa. “Dependemos de uma reação, a incerteza é muito grande para consumidor e lojistas. Quem conseguir manter o resultado do ano passado já terá um ótimo desempenho.”