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SÃO PAULO - Em 2007, os moinhos brasileiros devem deixar de faturar cerca de US$ 150 milhões em função da perda de competitividade em relação ao trigo argentino e a atual conjuntura poderá impulsionar um processo de desnacionalização do produto no País com a aquisição de moinhos brasileiros por empresas argentinas. Fontes do mercado já comentam sobre a compra de uma grande processadora do grão, avaliada como a terceira maior do estado da Bahia, pelo Moinho Cañuelas, o maior produtor e exportador de farinha da Argentina, além do arrendamento de um moinho em São Paulo.

A situação inversa também já acontece e uma migração das operações de empresas situadas no Brasil para a Argentina já pode ser observada. "A Bunge vai construir um moinho na Argentina e mandar a farinha de lá pra cá, o Moinho Pacífico e a Cargill já estão fazendo isso", diz o presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Estado de São Paulo (Sindustrigo), Luiz Martins, que também afirma que já existem moinhos brasileiros de menor porte misturando farinha argentina e distribuindo.

Atualmente para importar o trigo argentino o moinho brasileiro paga cerca de US$ 290 por tonelada, enquanto o produto em forma de farinha pode ser comprado a US$ 130 a tonelada.

Martins teme que o setor esteja sendo usado como moeda de troca pelo governo e acusa a Argentina de promover dumping -venda a preço artificialmente baixo- prejudicando o mercado brasileiro. "Em primeiro lugar eles vão acabar com as indústrias, depois com o setor produtivo, e quando conquistarem nosso atacado e varejo vão colocar o preço que bem entenderem", diz.

O medo de que a dependência do Brasil em relação ao trigo argentino chegue numa situação extrema também é citado pelo presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Samuel Hosken. "É preciso que o governo brasileiro fique atento para não permitir esta agressão comercial ao produtor de trigo, à indústria nacional e ao consumidor, que dependerá do humor dos fornecedores argentinos", diz.

Mesmo com o apelo do setor ainda não houve uma interferência do governo na crise. Esta semana o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) divulgou a lista de exceção à Tarifa Externa Comum do Mercosul (TEC) e o setor não foi contemplado. "O Brasil fez um PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para a Argentina, dando todas as condições para a indústria de lá se desenvolver", ironiza Martins.

De acordo com o diretor do Sindustrigo e do Moinho Santa Clara, Christian Saigh, o setor já se prepara para limitar drasticamente seus investimentos. "Por enquanto as indústrias estão investindo porque estão procurando produzir uma quantidade cada vez maior a um custo mais baixo, mas já estão chegando na linha tênue entre parar os aportes ou seguir", avalia.

O principal motivo para a crise são os subsídios que o governo argentino dá ao trigo, pressionando a indústria brasileira, que detém apenas 40% da produção necessária para o seu consumo e tem na Argentina o seu principal exportador. A situação problemática da indústria nacional se intensificou em maio quando o governo argentino suspendeu as licenças de exportação do grão para abastecer o mercado doméstico.

A crise deverá se agravar caso a Argentina confirme o aumento dos impostos de exportação sobre o trigo de 20% para 30% e a manutenção da alíquota da farinha em 10%. "Caso a Argentina não aumente o imposto da farinha para os mesmos 30% do grão, será uma medida para destruir a indústria nacional brasileira", afirma Hosken. Na avaliação do presidente da Abitrigo, a entrada da farinha argentina no Brasil, da maneira como está ocorrendo, vai estabelecer uma competição desigual com o produto nacional, limitando o desenvolvimento da indústria de moagem brasileira, que atualmente tem capacidade para moer 14 milhões de toneladas por ano de farinha de trigo, mas utiliza apenas cerca de 60% deste potencial.

Mesmo diante da crise, mais uma empresa do setor de trigo deve abrir capital nos próximos dias. A Comissão de Valores Mobiliários analisa o prospecto da J. Macêdo para a distribuição pública de 10 mil debêntures simples.