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Domingo, dia 6 de junho,

"O Espírito Livre que Faltou à Rússia - O Fundador da Língua Russa - Pushkin: Oposição Veemente à Tirania Czarista e Morte em um Duelo, por Ciúme".

"Pela primeira vez é traduzido no Brasil o clássico Eugênio Oneguin, de Alexander Pushkin. Considerada uma pedra fundamental da literatura russa, a obra é também o perfeito antídoto para o autoritarismo que marca a história do país. Alexander Sergueievitch Pushkin (1999-1837), pai da literatura russa, fundou a tradição que deu ao mundo Gogol, Dostoievski, Tolstoi e Tchecov."

Pushkin

"É não só sua obra-prima, mas também um monumento que rivaliza com a Divina Comédia de Dante, o Fausto de Goethe e as tragédias de Shakespeare. Esse romance em versos, antes inédito em nossa língua, sai agora finalmente em português graças a um trabalho de mais de dez anos do tradutor Dário Moreira de Castro Alves."

"Não é à toa que se trata de obra dificílima de traduzir. Só em inglês já saíram mais de dez versões, nenhuma considerada inteiramente satisfatória. O trabalho de Dário Moreira de Castro Alves é serio e empenhado, mas há muito a ser aperfeiçoado em sua versificação: a tradução de uma obra dessas é trabalho inacabável."

Dário

No dia seguinte, 7 de junho, Ancelmo Gois contou, n' O Globo:

"O embaixador Dário de Castro Alves, que faleceu ontem aos 83 anos, tinha especial paixão por dois países: Portugal e Rússia. Foi o primeiro a traduzir diretamente do russo o clássico Eugênio Oneguin, de Alexander Pushkin" (Editora Record, 288 páginas, Rio)".

Meu amigo morreu exatamente no dia da grande alegria de sua vida.

E que bela vida teve. Dário Moreira de Castro Alves nasceu em Fortaleza, Ceará, em 14 de dezembro de 1927. Em 1949, formou-se em Direito pela PUC do Rio e no mesmo ano passou no concurso do Instituto Rio Branco para o Itamaraty.

Serviu em Buenos Aires, na ONU (Nova York), em Moscou, Roma, Porto (onde foi cônsul geral), em Lisboa (onde foi embaixador de 1979 a 1983), foi embaixador do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA) em Washington, cujo Conselho Permanente presidiu.

Dinah

De tal maneira ligou-se a Portugal que, aposentado, lá viveu muitos anos, e o mais importante prêmio da Câmara de Comércio Luso-Brasileira é o Prêmio Dário Castro Alves. Cronista, escritor, tradutor, viveu dos livros, para os livros, com os livros. Entre tantos, Era Lisboa e Chovia -Dicionário Gastronômico Baseado na Obra de Eça de Queirós, e Era Porto e Entardecia -Dicionário de Enologia Baseado na Obra de Eça de Queirós.

Foi casado com Dinah Silveira de Queirós (1910-1982), autora de Floradas na Serra, e de A Muralha, segunda mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras. Viúvo, casou-se novamente com uma escritora.

Ultimamente vivia com a família em Fortaleza, onde varias vezes o reencontrei, em longos almoços e conversas na casa de seu dileto amigo, o ex-deputado e embaixador, também em Lisboa, Paes de Andrade.

Cartão

O derradeiro cartão, que ele me deixou na recepção do hotel, em Fortaleza, depois do lançamento, lá, de meu livro A Nuvem -O que Ficou do que Passou -50 Anos de História do Brasil (Editora Geração -SP), guardado aqui comigo, com sua letra firme apesar dos 83 anos, é um retrato dele, de sua alma límpida, seu imenso coração:

"Queridos amigos Sebastião Nery e Beatriz. Foi um prazer ter estado com vocês aqui no Ceará. Trago-lhes uns doces do Ceará, muito especialmente o alfenim, que tem gosto e cheiro da infância. Boa viagem. Dário."

O grande poeta Pushkin, barba cheia, cabelos encaracolados, lá em cima de sua estátua, em Moscou, bem merecia o tradutor que lhe deram.

Ficha-Suja

O presidente Lula sancionou o projeto dos fichas-sujas: recebendo qualquer tipo de condenação de qualquer colegiado da Justiça, o acusado vira ficha-suja e não poderá nem continuar no cargo nem disputar outro.

Mas o Brasil é um país tão maluco que já inaugurou a nova lei descumprindo-a. O maior ficha-suja do Brasil é exatamente o presidente da República, que só este ano já foi condenado cinco vezes seguidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), logo por um colegiado, e deveria ter perdido o cargo imediatamente. Acontece que nada lhe vai acontecer, porque o TSE não tem moral e cívica para fazer cumprir sua decisão. Quando aparecer um pé-rapado condenado, o TSE vai para a TV.

Gullar

O palácio do Planalto fingiu que não leu. O Franklin Martins, das Comunicações, continuou incomunicável. Todos fazendo de conta que de nada sabem. Mas Lula e o governo ficaram possessos com o poeta Ferreira Gullar porque, ao ganhar o Prêmio Camões (o maior da Língua Portuguesa), disse à Folha que "Lula é um farsante". Disse e repetiu.