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Os preços do aço para embalagens, em especial as folhas-de-flandres utilizadas na produção de latas, podem ficar mais baratos em 2006. Os fabricantes de latas fecharam o ano passado com um volume de estoques de chapas relativamente alto e os preços internos praticados pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) estão bastante acima das cotações internacionais, de acordo com indústrias do segmento de estamparia de latas. A usina conclui, até o fim da semana, levantamento pelo qual irá analisar alternativas para atender à demanda pelas folhas."É provável que haja corte nos preços das chapas, pois a CSN pratica preços domésticos muito superiores aos do mercado externo e o setor de latas passa a importar o insumo", afirma Rogério Marins, presidente da Metalgráfica Iguaçu . Ele comenta que é provável que a CSN passe a conceder descontos por quantidade, oferecendo preços mais baixos na aquisição de maiores volumes. "Eles ainda não possuem esse tipo de prática, comum a qualquer segmento industrial. Quem compra mais, geralmente paga menos", diz.Segundo Marins, a usina produz, em média, 1,1 milhão de toneladas de folhas-de-flandres por ano, sendo que a demanda interna gira em torno de 600 mil toneladas. "O restante eles acabam exportando a preços bem mais baixos do que os praticados no Brasil", explica o empresário. Mas Marins também afirma que a importação de chapas por parte do segmento de latas é cada vez mais freqüente. "Não há uma origem fixa. Importamos chapas de países como França, Inglaterra, China e Canadá".Quanto ao risco de escassez de chapas, devido ao acidente no alto-forno da CSN, Marins afirma que a própria usina pode se abastecer de placas de aço no exterior, conduzindo o processo de laminação a partir daí. Além disso, os fabricantes de latas estão bastante estocados de matéria-prima, segundo ele, além de poderem recorrer a usinas de outros países.A ausência de descontos por quantidade e os preços praticados no mercado interno prejudicam a competitividade da lata perante embalagens de outros materiais. De acordo com Ricardo Lacerda, diretor comercial da Companhia Brasileira de Latas (CBL), o aço ainda é um material caro no mercado de embalagens. "O aço possui um preço relativamente alto no Brasil. Os sucedâneos presentes em alguns segmentos de embalagens, como o polietileno tereftalato (PET) e o próprio alumínio, ganham mercado com base no preço", explica.Lacerda afirma que o PET tornou-se um forte concorrente da lata de aço nos últimos anos, conseguindo inclusive um certo ganho de mercado no ano passado. Antes disso, lembra o diretor, o alumínio praticamente tomou o mercado de bebidas do aço, prejudicando algumas empresas do segmento, como a própria Metalúrgica Matarazzo, indústria que daria origem à própria CBL. Na visão do executivo, o que está mantendo em alta os negócios para a CBL são as parcerias firmadas com clientes como a Basf e a Nestlé , para o desenvolvimento de latas e embalagens para nichos específicos.A CSN prefere não comentar sua política de preços, mas informou que deve concluir, até o final desta semana, análise de como o grupo deverá atender à demanda de folhas-de-flandres.AcidenteAlém da possibilidade de flexibilização nas práticas comerciais, levantada pelos consumidores das folhas-de-flandres, a CSN deverá passar por um desconforto adicional nos primeiros meses do ano, em decorrência do acidente em seu alto-forno nº 2, ocorrido na última semana. Embora os danos tenham sido mínimos, segundo a siderúrgica, e estejam cobertos por uma apólice de seguro que cobre com folga os danos materiais e lucros cessantes, a parada do alto-forno pode refletir negativamente nos volumes de produção da empresa no primeiro trimestre.Os seguros de grandes riscos para siderúrgicas estão entre os mais dispendiosos para o setor produtivo, segundo Luiz Alberto Mourão, diretor da área de riscos industriais da Mapfre Seguros . "No caso de outras indústrias, como petroquímicas, a produção algumas vezes pode ser direcionada para outra planta. Uma siderúrgica fica mais engargalada na produção do alto-forno".Além das usinas de aço, as petroquímicas e os segmento de distribuição e transmissão de energia elétrica geralmente possuem os maiores prêmios de seguros, de acordo com Mourão. "Apesar de não ser nosso cliente, estimo que a CSN deva arcar com uma franquia em torno dos US$ 5 milhões", comenta o diretor.Outro aspecto, segundo o executivo, é a grande importância do seguro de lucros cessantes para setores de base da indústria. "Os equipamentos a serem substituídos são, fatalmente, de grande porte, e sua remanufaturação exige longo prazo, que pode chegar a alguns anos", diz. Mourão afirma que a maior preocupação dessas indústrias é a perda de participação de mercado com a ocorrência de paradas, situação que não poderia ser compensada nem mesmo pelo acionamento do seguro de lucros cessantes.O diretor também explica que, em geral, seguros desse porte possuem renovação anual. "O processo de renovação, ou obsolescência, da indústria, atualmente, é muito rápido e exige constantes reavaliações nas questões referentes a seguros".