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As leis que restringem o uso de plástico têm impulsionado o uso de papel na indústria de descartáveis e resultam em uma queda de braço entre os fabricantes do setor. De um lado, empresas adotam o apelo da estética e da sustentabilidade. Do outro, entidades argumentam que o grande problema não é o material usado e, sim, o descarte incorreto.

Para as fabricantes, a mudança passa por uma maior preocupação ecológica de consumidores, apelo estético e barateamento do material. “Existe uma tendência de retirada de plástico dos produtos, coibir alguns materiais danosos. A solução mais viável de substituição é o papel. É o mais próximo da realidade econômica, além de permitir melhor qualidade de impressão”, aponta o gestor comercial da Fulpel, Wellington de Paula.

Atualmente, tramita no Senado um projeto de lei que dispõe sobre a obrigatoriedade da utilização de materiais biodegradáveis na composição de utensílios descartáveis destinados ao acondicionamento e manejo de alimentos. Aprovado pela Comissão do Meio Ambiente em abril, o PLS 92/2018 estabelece um cronograma de dez anos a partir da publicação da lei para a eliminação do plástico não biodegradável da composição de pratos, copos, bandejas, talheres, canudos e outros utensílios. “Há um movimento para ser rigoroso. A França já proibiu a venda de copos e pratos plásticos descartáveis. Na próxima década, esse tipo de material vai ser proibido e vemos o mercado se transformando”, afirma o assessor de marketing da Estilo Pack, Marcelo Rossi.

No início do mês, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro aprovou o banimento do uso de canudos plásticos em estabelecimentos comerciais. O projeto de lei aguarda a sanção do prefeito, Marcelo Crivella.

A principal motivação dessas propostas é o acumulo de lixo nos oceanos, consequente do descarte indevido de materiais não-biodegradáveis. “Ninguém recicla no Brasil. São centenas de milhões de copos de plástico descartados por dia”, diz Rossi.

A Estilo Pack, fabricante de embalagens descartáveis com sede em Barueri (SP), produz copos, potes e pratos feitos de papel biodegradável. “Não há plástico em nossos produtos, o que permite que seja descartado junto com o papel”, explica Rossi. Ele conta que a demanda vem de franquias de food service e do meio corporativo. “As empresas têm demonstrado interesse em mudar seus copos e embalagens. O papel também tem o apelo da impressão, que é esteticamente mais bonita que no plástico”, complementa.

A Fulpel Group, localizada em Taboão da Serra (SP), fornece copos e embalagens para cinemas, corporativo e lojas de conveniência, além de ser a primeira fabricante de canudos de papel do País. De Paula vê o setor de franquias como principal propulsor do uso de descartáveis de papel. “Esse mercado segue em expansão e estamos atrelados a isso, especialmente no segmento de alimentação fora do lar. Nesse cenário, projetamos crescer mais de 30% esse ano.”

A representante do marketing da Rosset, Nicole Rosset, empresa de impressão e formação de embalagens de São Paulo, conta que o desemprego que cria pequenos empreendedores no setor de alimentação também gera negócios. “Fornecemos para grandes players, mas também para os pequenos. Vemos essa movimentação, que é um reflexo da crise”, esclarece.

Ela acredita que a rejeição ao plástico é uma demanda do consumidor e que as empresas já estão se adiantando a mudanças de legislação. “Hoje, o preço do papel já equipara ao plástico. Com o isopor, que é mais poluente, é difícil competir.”

Contraponto

Para a diretora da Associação Brasileira de Embalagem (Abre), Luciana Pellegrino, a principal questão ambiental não é o material utilizado, mas a falta de um procedimento de compostagem correto. “Não há garantia que a decomposição devida vai ocorrer se não for feito o processo previsto em norma técnica. É preciso oxigênio e presença de microrganismos, e isso só ocorre se houver manejo”, explica a dirigente.

Luciana acredita que, mais do que discutir materiais, é preciso discutir processos. “A defesa do PLS 92/2018 alega que essa decomposição ocorreria com material biodegradável, mas isso não é verdade. Mais grave, nos aterros sanitários em que não ocorre essa movimentação, a decomposição gera alto teor de dióxido de carbono e metano, gases que são prejudiciais para a atmosfera.”

Em nota para o DCI, a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) declarou que projetos como o apresentado no Senado têm muito apelo popular, mas carecem de conhecimentos técnicos e sistêmicos. “Em relação ao banimento do plástico, acreditamos que não é a forma ideal de resolver um problema. É importante que haja uma visão sistêmica, pois pode se criar outros problemas dependendo de como será substituída aquela solução por outro material.”

Para a entidade, é mais importante que a discussão passe por uma revisão de hábitos. “Nós não podemos fazer a crítica de um modelo de consumo da sociedade sintetizando esta crítica a contestação de um único produto”, destacou.