Publicado em

Com a economia desacelerando e a queda do consumo de refrigerantes, responsável pela maior fatia do mercado de bebidas não alcoólicas, o setor pode enfrentar uma nova retração em 2018.

“O mercado está encolhendo devido à preocupação com a qualidade de vida. As bebidas açucaradas estão perdendo espaço e as vendas de suco, chá e outras opções mais saudáveis ainda são pequenas, não ocupando essa lacuna. O refrigerante tem a maior proporção, até por ser mais barato”, explica o analista contábil da fabricante Refrix, Vitor Pucineli.

De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas não Alcoólicas (Abir), desde 2014 o consumo per capita de refrigerantes vem diminuindo no Brasil: há quatro anos, era de 80,6 litros por habitante por ano. Já em 2016 foi de 70 litros. Os dados de 2017 ainda não foram consolidados, mas a consultoria Euromonitor projeta nova retração no mercado, com a produção nacional caindo de 16,571 bilhões de litros, em 2012, para 13,274 bilhões no ano passado. Para o presidente da Associação dos Fabricantes de Refrigerantes do Brasil (Afrebras), Fernando Rodrigues de Bairros, a conjuntura econômica também está atrapalhando o setor. “A crise atinge a todos e agrava ainda mais em um mercado que já tinha problemas. Os custos estão aumentando, fábricas fechando e a perspectiva é de queda.”

Nesta quarta-feira (27), a fabricante de refrigerantes Dolly entrou com pedido de recuperação judicial. A companhia declarou em comunicado que não está conseguindo pagar suas obrigações.

Bairros acredita que uma saída para o setor é investir em desenvolvimento de refrigerantes sem açúcar. “É uma possibilidade, com o açucar sendo visto como vilão, é preciso buscar inovações que mantenham o sabor original da bebida depois de retirar o ingrediente, para não causar rejeição do consumidor.”

A Refrix, empresa com planta em Tietê (SP), projeta crescimento para este ano apostando na terceirização da produção por outras marcas. “Enquanto o setor de refrigerante está reportando queda de 5% a 6%, nós crescemos 15%. Sustentamos isso prestando serviços, como por exemplo, uma fabricante que tem bebida em embalagem pet, mas não em lata. A empresa não vai investir em uma linha nova, terceiriza com a Refrix, reduzindo custos”, explana Pucineli. A companhia prevê ampliar a produção em pelos menos 25% em 2018.

Matéria-prima e tributação

A Bioleve, produtora de água mineral e bebidas não alcoólicas com sede em Lindóia (SP), avalia que o desempenho da empresa no início do ano foi menor que o esperado. “Havíamos previsto um crescimento de 5%, mas isso não ocorreu, tivemos um verão muito úmido. Esperamos compensar agora com um inverno mais seco, que melhora a demanda da baixa temporada”, afirma o presidente da Bioleve, Flávio Aragão dos Santos.

O executivo revela que uma das preocupações atuais do setor é o impacto cambial nas matérias-primas. “A desvalorização do real frente ao dólar causou um aumento da ordem de 25% na resina utilizada nas garrafas pet. Também afeta os insumos que são importados nas linhas de sucos, refrigerantes e isotônicos. E com a situação econômica atual, é muito difícil repassar o aumento de custos para o consumidor.”

Em consequência da desoneração do diesel, o governo reduziu a alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de concentrados de refrigerantes na Zona Franca de Manaus de 20% para 4%. A Abir, entidade que tem entre suas associadas as maiores empresas do setor, criticou a decisão, declarando por meio de nota que “nada justifica a ausência de diálogo com o setor. A mudança brusca do regime tributário de compensações fiscais ameaça os investimentos e a própria operação de diversas indústrias.”

Já a Afrebras, associação que reúne fabricantes locais, comemorou a medida. “Era uma diferença concorrencial. Porque as empresas pequenas recolhem o imposto e as grandes não? Essa alteração é boa para sociedade, consumidores e setor. Agora, concorremos de forma mais justa”, afirma Bairros.