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A aquisição da Eletropaulo pelo grupo Enel pode sinalizar uma intensificação de investimentos estrangeiros no setor de energia, acreditam especialistas. Concretização do negócio tornou companhia italiana líder no segmento de distribuição no País.

“Pelo momento que o Brasil atravessa, com a economia precisando se recuperar, é um termômetro importante para investimentos. Traz um ar novo para o setor, com novos players chegando ao País”, avalia o professor de economia do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais de São Paulo (Ibmec/SP, Walter Franco).

Nesta segunda-feira (04), acionistas da Eletropaulo aceitaram a oferta de R$ 45,22 por ação da empresa. A Enel deverá pagar cerca de R$ 5,5 bilhões pela aquisição de 73% dos papéis e assumir o controle acionário da empresa. Na última quarta (30), o grupo italiano venceu uma disputa acirrada contra a espanhola Neoenergia pela maior oferta pela distribuidora paulista.

Franco afirma que a forte concorrência e o alto valor desembolsado se justificam pela atratividade do mercado atendido pela Eletropaulo. “É um ativo muito importante, atua em uma concentração demográfica muito grande. Além disso, foi uma das primeiras empresas do setor a ser privatizada, ela já passou por um processo de modernização importante.”

Adquirida pelo consórcio Lightgás em 1998, a Eletropaulo passou a ser controlada pela AES em 2001. Em 2016, por uma decisão estratégica, o grupo decidiu focar no setor de geração e diminuir sua participação em distribuição, abrindo espaço para a venda da empresa “O investimento está sendo feito em uma distribuidora com potencial melhor mapeado. O projeto pode ser feito de forma mais eficiente. A Enel não pagou caro, considerando o caixa que será gerado”, aponta Franco.

A disputa se iniciou em março, quando os papéis da Eletropaulo eram negociados por cerca de R$ 17, e chegou a contar com a participação da brasileira Energisa, que não foi capaz de acompanhar a guerra de lances que se sucedeu. O sucesso garantiu a Enel a liderança do mercado de distribuição, posto que pertencia a chinesa CPFL. Com operações no Rio de Janeiro, Ceará e Goiás, o grupo italiano passa atender 17 milhões de clientes.

A diretora da Thymos Energia, Thais Prandini, destaca que a Enel também tem uma forte atuação no segmento de geração, sendo líder em energia solar no Brasil. “Existe espaço para projetos nesse mercado em São Paulo, especialmente em geração distribuída. Não que vá mudar a matriz energética da região, mas a empresa deve fazer investimentos.”

Thais avalia que a disputa entre Enel e Neoenergia dá continuidade a uma movimentação importante de europeus na indústria de energia do Brasil. “Os últimos leilões de geração solar e eólica foram dominados por empresas da Europa. A Eletrobras perdeu poder de investimento e a proporção de participação brasileira ficou menor.”

A diretora da Thymos sustenta que a proposta feita pela Enel não seria viável para uma empresa nacional. “É uma oferta bem agressiva, mas de uma empresa muito bem consolidada, com uma estrutura fora do País. Com certeza, ela terá resultado positivo sobre a compra, que seria muito cara para uma empresa brasileira.”

Leilão de distribuidoras

Embora a negociação não tenha influência alguma na situação das vendas de seis distribuidoras que estão sob o controle da Eletrobras (Amazonas Distribuidora de Energia, Boa Vista Energia, Companhia de Eletricidade do Acre, Companhia Energética de Alagoas e Companhia de Energia do Piauí), Thais ressalta que, com a perda da Eletropaulo, a Neoenergia deve redobrar sua atenção ao certame. “A Neoenergia está com capital para investir. Com certeza está olhando para as distribuidoras da Eletrobras e buscando outras alternativas.” O grupo espanhol fez uma oferta de R$ 39,53 por ação da Eletropaulo na semana passada.

Na última quarta (30), o plenário do Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou a publicação dos editais de privatização das seis distribuidoras. O governo pretende realizar as vendas até o final de julho. “Existem alguma burocracias a serem resolvidas, mas acredito que o leilão será realizado dentro do prazo”, prevê Thais.

Franco reafirma que, embora a negociação não torne mais plausível à privatização da Eletrobras, é uma importante sinalização de interesse de investimentos estrangeiros no setor elétrico. “São coisas distintas, mas é um bom termômetro. A negociação é positiva em quase todos os aspectos. Quando o investidor chega, a movimentação inicial é muito forte para recuperar o aporte. No caso das distribuidoras da Eletrobras, isso será muito mais necessário, pois elas ainda não passaram por esse processo de modernização.”