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O crescimento acelerado da economia global tem impulsionado a construção de novos reatores de energia nuclear, apesar da resistência em torno da segurança dos empreendimentos. Porém, mesmo em um cenário favorável para o segmento, a conclusão da usina de Angra 3 (RJ) continua em um horizonte cinzento.

Segundo estimativas de mercado, o custo para concluir as obras do ativo da Eletronuclear – que começou a ser construído em 1984 – supera R$ 13 bilhões, além dos R$ 7 bilhões já consumidos. A subsidiária da Eletrobras procura agora um sócio para a conclusão da usina.

No entanto, para a especialista do setor regulatório do Siqueira Castro Advogados, Mariana Pessanha, o que atrapalha essa busca é a aprovação do projeto de lei (PL) de privatização da Eletrobras. Ela lembra que só depois deste processo a Eletronuclear será separada da holding. “Enquanto isso não acontecer, fica difícil a busca por um investidor.”

Nesse ínterim, as obras de Angra 3, paradas desde 2015 devido a denúncias da Lava Jato, continuam dando prejuízo adicional de R$ 30 milhões por mês, segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), referentes a financiamento. “Em um ano de eleições, o horizonte para solução do problema é ainda mais distante”, acrescenta a advogada. Porém, ela pontua que há atratividade na usina. “Apesar de representar uma fatia pequena da matriz energética brasileira, a fonte nuclear é absolutamente estável e garante oferta em momentos de baixa”, explica. “Podemos ter interessados do mundo todo na conclusão de Angra 3.”

O analista de mercado da Safira Energia, Lucas Rodrigues, corrobora. “A fonte é mais limpa que os combustíveis fósseis, gera menos resíduos e o rendimento é alto. Tem todo o potencial para atrair investidores para sua conclusão”, avalia.

O gestor de recursos na L2 Capital Partners, Marcelo López, destaca que nos próximos dois anos devem entrar em operação cerca de 57 novos reatores no mundo. “A geração desse tipo de energia vai ser uma peça muito importante no desenvolvimento global.”

Segurança

O acidente de Fukushima Daiichi completou sete anos no último domingo. Um terremoto de 9 graus na escala Richter não foi o causador direto do desastre em si, mas o maremoto de magnitude 8,7 que inundou o complexo, interrompendo o fornecimento de energia para o resfriamento do reator 3, que acabou explodindo. Mas López avalia que, hoje, os países que adotam a fonte estão cada vez mais preparados para construir usinas seguras. “Obviamente que depois de Fukushima todo mundo ficou apreensivo. Mas o próprio Japão já voltou a produzir energia nuclear e a demanda de urânio para este fim vem crescendo de forma significativa.”

Rodrigues pontua que os países que desenvolvem altos níveis de tecnologia estão adotando a energia nuclear, como Coreia do Sul e China. “Além disso, a geração nuclear é mais previsível que as renováveis, por exemplo”, assinala.

Segundo estimativas da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), até 2040 os investimentos em energia nuclear devem somar US$ 1,1 trilhão, elevando os níveis de produção em cerca de 46%. Por outro lado, a participação da fonte na matriz global deve cair para 10%.

Especialistas garantem que a energia nuclear é segura e que os três acidentes relevantes da história – incluindo o de Chernobyl – são proporcionalmente pequenos perto do custo-benefício. “Esta é uma fonte totalmente controlável, que corrige intermitências. A energia nuclear poderia inclusive evitar grandes obras de transmissão e apagões no Brasil”, aponta Rodrigues.