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São Paulo - A queda na produção de jornais e revistas e de embalagens de papelão ondulado tem impactado diretamente a indústria de aparas de papel, que depende do material descartado para selecionar, prensar e revender aos compradores.

Segundo o proprietário da comercializadora CBS Aparas, Carlos Ribeiro, o faturamento da empresa caiu pela metade desde janeiro do ano passado, porque o fornecimento do papel recebido também ficou cerca de 50% menor. A demanda pelo produto, segundo ele, ainda existe, porque as fabricantes de papel têm substituído a celulose pura, cada vez mais cara, pelas aparas recicladas. No entanto, como a quantidade de rejeitos disponíveis diminuiu, a companhia não consegue atender a todos.

"O ambiente de queda no consumo levou a um uso menor das caixas de papelão, que servem para o transporte de quase todos os produtos e são a principal fonte de aparas para nós", conta o executivo. "E a redução da procura pelas aparas foi muito menor do que a redução da produção, de forma que hoje faltam aparas no mercado", explica.

Segundo dados da Associação Brasileira de Papelão Ondulado (ABPO), a expedição de caixas, acessórios e chapas recuou 3,08% no acumulado de 2015 frente a 2014. No entanto, no mesmo período, o preço das aparas onduladas passou de R$ 365,51 a tonelada para R$ 381,94, o que mostra que existe uma escassez de aparas, de acordo com o diretor da Anguti Estatística, Pedro Vilas Boas, que organiza relatórios para a Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap).

Além da produção menor de papel, o período chuvoso e o custo maior de frete diante do encarecimento dos combustíveis têm dificultado a coleta das aparas, avalia o consultor. A alta dos preços até ameniza o impacto da queda de volumes para os aparistas, diz ele, mas não foi suficiente para compensar as perdas.

"A Política Nacional de Resíduos Sólidos também não surtiu muitos resultados para o setor porque os municípios estão atrasados e não fizeram a sua parte", analisa Vilas Boas.

O presidente da Sociedade Comercial de Resíduos e Aparas (Scrap), Fabio Bellacosa, afirma ainda que os catadores que antes faziam a coleta e o transporte das aparas têm preferido trocar de profissão diante do aumento dos custos com mão de obra, combustível e manutenção. De acordo com o executivo, há cerca de um ano ele tinha 20 veículos terceirizados que vendiam aparas para uma das unidades da empresa, número que foi reduzido a dez até o início de 2016.

No segmento de aparas brancas, formadas principalmente pela reciclagem de revistas, jornais e livros, o aumento dos preços da celulose levaram à substituição do insumo puro pelo material reciclado, o que provocou uma escassez ainda maior do produto, avalia Bellacosa, que também é presidente da Anap. Conforme dados da Anguti, o preço da apara branca de maior qualidade aumentou mais de 43% entre janeiro e dezembro de 2015, alcançando R$ 1.670 por tonelada.

"No nosso caso, não temos muito que fazer para reverter a situação", aponta Ribeiro, da CBS, sobre possíveis saídas para o problema da escassez. "Quando a empresa fabrica parafusos, por exemplo, pode decidir aumentar sua capacidade de produção até o limite das máquinas. No mercado de aparas, nós dependemos do produto que nos trazem, e não temos controle sobre a capacidade de produção."

Exportações

A ameaça do fornecimento no mercado interno prejudica também o desenvolvimento das exportações do mercado brasileiro de aparas, que até então tem conseguido aproveitar a valorização do dólar para quase triplicar as vendas para o mercado externo, sobretudo a China e os Estados Unidos.

De acordo com os últimos dados disponíveis na Secretaria de Comércio Exterior do Ministério de Minas e Energia (MME), os embarques do setor cresceram 237% em novembro do ano passando ante o mesmo mês de 2014, passando de 2.569 toneladas para 6.957 toneladas. O volume ainda é bastante pequeno na comparação com o total produzido, de mais de quatro milhões de toneladas, segundo Vilas Boas, mas tem ajudado a segurar preços e a regular o mercado.

"Com o aumento do poder aquisitivo do brasileiro, papeis higiênicos de menor qualidade foram abandonados e era para a produção de rolos de folha simples que mais se usava a apara branca", explica o consultor. "Isso reduziu muito o consumo interno e, consequentemente, das aparas. A Alternativa foi buscar mercado internacional e isso aconteceu com bastante sucesso, até este momento de escassez."

Ribeiro afirma que gostaria de ter a oportunidade também de aproveitar o momento e exportar, mas, por enquanto, prefere atender seus clientes nacionais. "Eu venho dando prioridade para meus compradores antigos, que são os que estão comigo há mais tempo e os que compram mais."