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A indústria espera crescimento em 2019, baseado nas propostas do governo eleito de Jair Bolsonaro. Porém, a concretização desse avanço está condicionada a aprovação das reformas econômicas.

Nesta quarta-feira (12), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou a projeção de crescimento da economia brasileira em 2,7%, puxada pelo PIB industrial, que deve ter incremento de 3%. “Há uma expectativa de que tenhamos um ano de crescimento mais forte e a indústria tenha papel importante. Mas ainda falta uma confiança maior de que as reformas vão ocorrer, o que condiciona todo o resto”, avalia o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Mauro Rochlin.

O professor de economia do Ibmec-SP, Walter Franco, acredita que a projeção é factível, devido à capacidade ociosa da indústria. “Há espaço para crescimento. Mas a importância das reformas não pode ser esquecida, tanto a da previdência quanto a fiscal, e da manutenção do teto de gastos.” Para ele, além de concretizar a reforma da previdência e dar início à tributária, o governo Jair Bolsonaro deve focar na recuperação do crédito. “A demanda maior vai dar incentivo ao consumo. Ainda há fraca recuperação de massa salarial e emprego”, destaca.

O relatório da CNI cita como riscos à concretização do cenário de crescimento a não aprovação de reformas ou que elas avancem de maneira limitada. “Se o governo não oferecer a solução para a questão fiscal, os investimentos não vêm. É um fator prorrogador de decisões”, aponta Rochlin. “Sem essas reformas, fica difícil pensar em crescimento.” Também são enumeradas ameaças externas, como o acirramento das tensões comerciais, novas elevações de juros nos EUA e queda adicional do ritmo de crescimento do produto global. “São pontos importantes, mas recuperáveis”, acredita Franco, avaliando que as questões internas são mais urgentes.

O coordenador de economia e finanças do Ibmec-RJ, Ricardo Macedo, entende que a questão é saber se o novo governo terá agilidade para implementar as reformas. “Depende da Câmara e do Senado. O aspecto burocrático pode prejudicar o andamento das reformas, ou desidratá-las. Mas, para a indústria, qualquer reforma seria melhor do que nenhuma”, avalia.

Franco espera que, com o Congresso renovado, vai haver uma maior compreensão e pragmatismo para aprovar as reformas. “É muito difícil comparar a situação deste ano com 2019. O empresariado deseja essas reformas e o Congresso espelha muito isso.” Porém, ele ressalta que é preciso celeridade. “É necessário aproveitar o 1º trimestre para pelo menos apresentar as pautas e esclarecer, já em janeiro, qual será a agenda de privatizações.”

Em coletiva de imprensa, o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, declarou que a reforma da previdência deveria ser a primeira proposta a ser apresentada. “Sabemos que o Congresso começa a funcionar em fevereiro, após as eleições dos presidentes da Câmara e do Senado. Tenho expectativa que o governo vai conseguir fazer a reforma da previdência, que é a mais importante. Senão, terá que sinalizar de que outra forma o déficit será reduzido.”

Para Rochlin, caso o crescimento econômico se concretize, o segmento da indústria que mais se beneficiaria seria o de bens de consumo duráveis. “Na crise, é o segmento que mais sofre e, na retomada, é o que se recupera por último. Se a melhora se concretizar, o consumo de setores como automobilístico podem ser positivamente impactados.”

Ano frustrante

Na avaliação da CNI, o adiamento das reformas foi um dos fatores que prejudicou o desempenho da economia e da indústria em 2018. O crescimento ficou aquém do estimado no fim de 2017 e o PIB do País deve fechar o ano com crescimento de 1,3%, abaixo dos 2,6% previstos inicialmente. O PIB da indústria, inicialmente projetado em 3%, também deve crescer apenas 1,3%.

Para Macedo, a agenda reformista do governo Michel Temer fez com que se criasse expectativas positivas, que acabaram não concretizadas. “O governo foi se esvaziando e a indústria sofreu uma queda, que acabou impedindo que a economia alavancasse.”

Rochlin destaca que, desde 2017, o atual presidente acabou perdendo boa parte de seu capital político. “Desde o episódio com a JBS, o País vem em suspense, à espera de reformas que não vem, com sua legitimidade questionada”, diz, em referência à conversa gravada entre o dono da JBS, Joesley Batista, e o presidente Michel Temer, em maio de 2017.