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As sucessivas altas de preços da celulose e a valorização do dólar pressionam as papeleiras. Já no pulverizado mercado da indústria gráfica, os custos de produção crescem sem possibilidade de repasse.

“A cotação elevada da celulose no mercado internacional, somada à variação cambial, impacta a composição dos custos. Mais de 95% das gráficas são pequenas ou micro, sem poder de barganha. Como o mercado brasileiro está desaquecido, há um ponto de estresse muito grande, o setor não consegue repassar o incremento dos custos”, afirma o presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), Levi Ceregato. Desde 2017, a celulose passa por um ciclo de aumento de preços, em razão do crescimento da demanda global, especialmente na China. “Há uma forte retomada da atividade industrial na América do Norte e Europa. Na China, além desse aspecto, reformas ambientais impactam o setor, levando fábricas de papel a operarem com capacidade reduzida ou interromperem sua produção”, explica o economista da Tendências Consultoria, Marcelo Domingues. A cotação atual da tonelada de celulose é de US$ 1,05 mil para fibra curta e US$ 1,2 mil para fibra longa. Já para o papel, Ceregato aponta que houve um aumento médio de 25% dos preços em 2017. “Já houve um incremento de 10% no início de 2018 e previsão para mais 10% no 2° semestre. É um patamar muito superior ao atual nível da inflação, por exemplo.” Outro fator de impacto no valor da matéria-prima do papel é o câmbio. “Grandes empresas, praticamente sem concorrência, têm o domínio da celulose e precificam o mercado conforme os preços internacionais”, diz Ceregato. O presidente do conselho diretor da Associação Nacional dos Distribuidores de Papel (Andipa), Vitor Paulo de Andrade, afirma que os contratos de fornecimento levam em conta a taxa do dólar médio do trimestre anterior. “O aumento da celulose, em função da moeda, ainda vai chegar às fabricas de papel no 2º semestre. Essa concentração na produção se repete na indústria de papel, que faz o repasse imediatamente às gráficas. Por sermos um mercado mais competitivo, não podemos fazer o repasse tão rapidamente ao consumidor”, destaca.

Para Ceregato, essa precificação dolarizada provoca uma distorção. “A árvore é plantada no Brasil, o papel é produzido aqui. Entendemos que o preço está deslocado da realidade do mercado interno. Isso dificulta a rentabilidade das empresas.” Ele revela que o impacto dos aumentos está causando uma reavaliação da expectativa de crescimento para 2018. “Perdemos 25% de mercado nos últimos quatro anos. Em 2017, o setor cresceu 1% e esperávamos 1,5% a 2% para este ano. Porém, agora estamos projetando estagnação ou 0,5%.”

As entidades acreditam que uma possível saída seria a importação de papel. Porém, a alternativa esbarra na taxação. “O custo de importação é muito alto, a alíquota varia de 12% a 14%”, afirma Andrade.

Ceregato não acredita que o governo irá atuar nesse momento para alterar esse cenário. “Acho difícil que se reduza a carga tributária, o governo depende da arrecadação dessas grandes empresas. O que esperamos é que a indústria do papel, que já tem uma lucratividade enorme, olhe para seu consumidor interno e não faça o repasse de preço de forma tão abrupta.”

Fusões e aquisições

Domingues acredita que a união entre Fibria e Suzano será mais um fator para elevação de preços. “Teríamos um mercado mais concentrado, com Fibria e Suzano responsáveis por 35% do mercado de fibra curta. Essa fusão dificultaria ainda mais a redução dos preços.” Já o economista e vice-presidente de celulose da Risi, David Fortin, não acredita que essa operação terá impacto nos preços internacionais. “Mesmo após as últimas aquisições no Brasil, o mercado não está consolidado o bastante para oferecer aos produtores poder de precificação. A tendência é que o mercado continue apertado em razão da defasagem do suprimento em relação à demanda.”