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Com a queda da inadimplência e consequente melhora da oferta de crédito, o mercado de motocicletas esboça retomada. A produção está crescendo em 2018, mas ainda deverá ser 50% inferior ao recorde do setor de 2011.

“O mercado está melhor do que em 2017 em todos os segmentos. As taxas de juros estão reduzidas e a inadimplência baixou: no setor de veículos é quase metade do que no ano passado. Isso estimulou os bancos em termos de concessão de crédito”, avalia o economista e diretor da Ceres Inteligência, Alexandre Galvão.

Segundo dados da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), a produção de motos foi de 777,1 mil unidades no acumulado de janeiro a setembro, 19,2% superior ao mesmo período de 2017. O número de emplacamentos também cresceu (8,7%), com destaque para a melhora de vendas por meio de financiamento, 12,8% superior ao ano passado.

Galvão também associa a melhora como uma decisão pelo consumo de veículos mais baratos. “No fim de uma crise, bens mais baratos tornam-se alternativas acessíveis. O setor de motocicletas está fortemente ligado à questão do emprego, mas não parece ser o caso agora, é mais uma decisão de consumo.” O economista não enxerga, entretanto, um movimento de substituição de carros por motos. “O setor de veículos cresce como um todo, não há um desnível entre esses segmentos”, avalia.

Além da expansão do crédito, o presidente da Abraciclo, Marcos Fermanian, destaca a opção por um veículo de baixo consumo de combustível. “Essa necessidade ficou mais evidente após a crise causada pela greve dos caminhoneiros”, declarou em entrevista coletiva nesta terça-feira (09). A entidade manteve sua última projeção de 980 mil motos produzidas neste ano, alta de 11% sobre 2017. “Chegamos a produzir dois milhões de unidades em 2011 e agora voltamos a crescer. É um momento muito animador para o setor, com chance de ultrapassar um milhão de unidades produzidas. Ainda sim, será 50% do que nós já fomos.” O dirigente disse que ainda não há projeções para 2019, mas a expectativa é de um novo crescimento.

Galvão acredita que o atual momento eleitoral e a incerteza do futuro econômico do País não está afetando o consumo da população. “Poderia haver um efeito negativo, mas parece que não está acontecendo, as pessoas estão mais otimistas do que parece. Essa decisão é mais imediatista, pela necessidade do dia a dia.” Ele aponta que, apesar das variações cambiais, o período eleitoral não trouxe grandes consequências para a economia. “O dólar chegou a ficar mais caro, mas não em um nível muito crítico.”

Exportações

Entre os indicadores da Abraciclo, o único que teve desempenho negativo foi o de exportações. Em setembro, foram embarcadas 3,3 mil motos, queda de 70,2% sobre igual período de 2017. Ante agosto, a redução foi de 55,7%.

De acordo com a entidade, a perda acentuada se deve à crise na Argentina, principal destino das exportações do setor. “O mercado argentino corresponde a 72,4% de nossas vendas externas”, explica Fermanian. No acumulado do ano, 57,1 mil motos foram exportadas, número 3,6% menor em relação ao primeiros nove meses de 2017. “O mercado argentino está bem abaixo do esperado, mas ainda temos esperança de recuperação”, afirma o presidente da Abraciclo. Ele pondera que, mesmo que essa recuperação não ocorra, não há riscos de queda da produção. “É possível redirecionar para o mercado interno, a demanda está boa.” O dirigente revela que as marcas exportadoras buscam outros mercados na América Latina. “O continente tem potencial para 1,7 milhão de motos. Grande parte desse volume vem da Ásia. Há um esforço das indústrias de Manaus para conseguir competir, mas é difícil devido aos custos.”

Fermanian destaca a dificuldade logística de escoar a produção do Polo Industrial de Manaus (PIM) para o exterior. “Há falta de acessos adequados. Procuramos levar essa demanda ao governo, mas a instabilidade política atrapalha. Esperamos que o próximo ajude a infraestrutura a se desenvolver”, assinala.