Publicado em

São Paulo - O acidente na usina nuclear de Fukushima, no Japão, levou o governo brasileiro a aprimorar os sistemas de defesa contra um acidente nas usinas da Eletronuclear em Angra dos Reis. As medidas até o momento resumiam-se a planos de evacuação da região, por meio de estradas, entre as quais a BR-101, palco de frequentes escorregamentos de terra em decorrência das chuvas. Agora, o novo plano englobará novas rotas que incluem retirada da população por mar e por ar com a utilização de helicópteros.

De acordo com o ministro de Ciência e Tecnologia, Aloízio Mercadante, a proximidade das centrais termonucleares com São Paulo, onde está a segunda maior frota de helicópteros do mundo, e à Bacia de Campos, local onde a Petrobras mantém sua frota de trânsito nas plataformas de petróleo, viabilizam essa saída.

"Teremos mais medidas de segurança. Estamos ampliando o raio de segurança para a prevenção em um cenário de evacuação que poderá se dar por meio de um plano associado de helicópteros, através das três estradas que saem de Angra e também com navios e barcos de apoio para termos um plano de fuga mais rápido e eficiente", enumerou o ministro. "E de outro lado, construiremos uma miniusina de geração de energia que será exclusiva para os reatores nucleares, que servirá como mais um sistema de segurança redundante, porque já há um outro que contém dois geradores a diesel para cada usina, essa será mais uma linha de defesa para as usinas de Angra 1 e Angra 2", concluiu ele.

Redundância

Apesar de o governo querer instalar uma Pequena Central Hidroelétrica (PCH) como mais um sistema de segurança, essa medida é questionada pelo diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), Rafael Schechtman, que é engenheiro elétrico com Ph.D. em Engenharia Nuclear pelo Massachussets Institute of Technology (MIT). Para ele, o ideal é que o governo coloque mais um gerador a diesel na própria área das usinas, pois a região possui solo instável e um regime de chuvas que dificultaria a manutenção dessa central. Além disso, apontou ainda a dependência da instalação de uma linha de transmissão para o transporte da energia até as usinas, fato que colocaria em risco esse fornecimento em função dessa instabilidade do terreno da Serra do Mar.

Na opinião do especialista, o tempo e terreno instáveis são os maiores problemas dessas centrais no Brasil, fato que dificulta a fuga de emergência em caso de acidente, justamente o foco do novo plano de segurança do governo para a região de Angra dos Reis.

Segundo o coordenador de Comunicação e Segurança da Eletronuclear, José Manuel Diaz, as usinas em Angra possuem um padrão de segurança de nível mundial. Segundo ele, as duas centrais são protegidas de ondas por dois níveis de barreiras e suportam terremotos de até 7 graus na escala Richter. Para efeitos de comparação essa foi a intensidade do tremor que abalou no início de 2010 o Haiti e que destruiu quase todo aquele país. Desde 2002, o abalo sísmico mais elevado registrado pela Eletronuclear foi de 5,2 graus. Já no caso de falta de energia, continuou ele, há ainda um sistema de refrigeração por meio de circulação natural de água utilizando apenas a diferença de temperatura da água.

Um dos destaques quanto à segurança das usinas são os edifícios de contenção que compõem a parte de proteção externa das usinas. De acordo com Schechtman a diferença entre as usinas brasileiras e a de Fukushima está na dimensão dessa estrutura. Aqui no Brasil é maior, fato que eleva a capacidade de armazenagem de vapor em caso de incidentes com o reator.

Porém, ele ressalta que nenhuma usina é 100% segura, há outro elemento que pode ocorrer, como nos Estados Unidos em Three Mile Island, cujo erro técnico culminou com o segundo maior acidente da história até hoje, superado apenas pelo de Chernobyl.

Para o ministro, o acidente com a usina de Fukushima deverá aumentar as exigências do protocolo de segurança das centrais nucleares e com isso encarecer a tarifa da energia gerada por essas usinas. No Brasil, porém, esse impacto deverá ser baixo porque a energia nuclear responde por apenas 2% de toda a geração nacional, diferentemente do Japão, que tem 37%, e da França, 80%, da matriz nuclear. "Devemos investir em energias limpas, porque o Brasil ainda tem potencial hidroelétrico e eólico, que expandiremos fortemente e é por onde queremos continuar, em renováveis", disse ele que apesar dessa diretriz afirmou que o País continuará com seu plano de construir as duas novas centrais com 2 usinas de 1 mil MW cada até 2030.