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O bom desempenho da indústria automotiva pode ter como obstáculos a inconsistência da retomada econômica, a instabilidade política e o desemprego ainda alto. Apesar desses fatores, as montadoras continuam otimistas e mantêm projeções de crescimento para 2019.

“O setor automotivo tem dado sinais positivos no mercado doméstico, porém, sobre uma base fraca. Estamos apenas no início do ano, mas o crescimento do PIB e da indústria já está sendo revisto para baixo”, avalia o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rafael Cagnin.

Nesta quinta-feira (04), a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou os dados de produção do primeiro trimestre do ano. Foi registrada uma queda de 0,6% na comparação com o mesmo período de 2018.

Durante a coletiva de imprensa, o presidente da entidade, Antonio Megale, ressaltou os impactos negativos pontuais no mês de março, como as chuvas que inundaram a fábrica da Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo (SP) e a greve dos metalúrgicos em protesto contra a reforma da Previdência. “Esses fatores, em conjunto com a queda das exportações, representaram uma redução de 18 mil unidades.”

Apesar desse desempenho, a Anfavea manteve a projeção de crescimento da produção em 9% para 2019. “As previsões de crescimento do PIB estão caindo, mas nosso setor anda bem e há uma expectativa com a reforma da Previdência. Não vamos alterar nossas projeções e até achamos que há um viés de alta no mercado interno. O desempenho está positivo até aqui e os melhores meses ainda estão por vir”, disse Megale.

Ainda na quarta-feira (05), a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) havia destacado que o desempenho da produção não era tão forte quanto das vendas que, segundo a Anfavea, atingiram 207,4 mil unidades em março, incremento de 0,9% em relação a igual período de 2018.

Para Cagnin, é preciso ter cautela quanto ao crescimento de qualquer setor. “O quadro atual é de paralisia geral. Qualquer variação positiva pode ser pontual e não se mostrar sustentável no longo prazo. Não necessariamente essas revisões de PIB são incorporadas de imediato por todos os segmentos da indústria.”

O economista entende que, embora seja fundamental, a reforma da Previdência não trará um impacto de curto prazo para a retomada da economia. “Existe todo um conjunto de medidas para ampliar a competitividade, que vai além da reforma da Previdência e a melhora da confiança para investir. É um elemento importante para engrenar a recuperação, mas não é o único.”

Ele ressalta que uma série de pilares fundamentais para o crescimento não está firme. “É preciso ocupar a capacidade instalada, o que não está ocorrendo. Também são necessárias condições mais adequadas de financiamento, quando o que se vê é o encolhimento do BNDES e o mercado de capitais ainda não sendo capaz de fazer frente a demanda de longo prazo”, esclarece.

Cagnin aponta outras frentes necessárias para o avanço da produção, como a reforma tributária. “Não apenas em razão da carga, mas da complexidade do sistema tributário e da insegurança jurídica que isso causa. A taxa juros de empréstimo precisa cair mais, como ocorreu com a da Selic, dado o enfraquecimento da economia doméstica, e os índices de emprego precisam melhorar. Nenhum desses pontos depende da reforma da Previdência para avançar”, complementa o economista.

Exportações

O balanço da Anfavea mostrou que as exportações seguem em queda, de 42% no primeiro trimestre. “A Argentina continua com dificuldades e as notícias não são boas. Os embarques do primeiro semestre parecem já estar comprometidos”, explicou Megale.

Ele estima que a participação do país vizinho nas exportações do setor caiu de 70% para 60% desde o ano passado. “A boa notícia é a Colômbia, que cresceu de 3% para 10% em participação.” Ainda assim, o dirigente admitiu a possibilidade da projeção de exportações ser revisada para baixo.

Cagnin acredita que esse cenário é mais um desafio para a produção do setor. “Uma das alavancas de crescimento nos últimos anos era justamente as exportações. Esse cenário não é mais possível pela crise na Argentina e pela desaceleração da economia internacional.”