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Por Aluisio Alves

SÃO PAULO (Reuters) - A espanhola Aena marcou em grande estilo sua entrada no mercado aeroportuário brasileiro, ao vencer nesta sexta-feira uma acirrada disputa pela concessão de um cobiçado lote de aeroportos no Nordeste do país, certame também percebido como mostra do apetite internacional por um ambicioso plano de privatizações do governo de Jair Bolsonaro.

Com uma oferta de 1,9 bilhão de reais, ágio de 1010 por cento sobre o valor mínimo fixado para outorga, a Aena foi declarada vencedora após 19 lances no leilão viva-voz. O grupo espanhol obteve com isso o direito de administrar os aeroportos de Recife (PE), Maceió (AL), João Pessoa (PB), Aracaju (SE), Campina Grande (PB) e Juazeiro do Norte (CE) por 30 anos.

Batida pela Aena na disputa pelos terminais do Nordeste, a Zurich venceu o lote Sudeste, com oferta de 437 milhões de reais. E o lote Centro-Oeste foi arrematado pelo consórcio Aeroeste, formado pelos grupos Socicam e Sinart, que ofereceram 40 milhões de reais.

No conjunto, o governo federal levantou 2,377 bilhões de reais com o pagamento imediato da outorga mínima, um ágio de 986 por cento em relação ao valor mínimo fixado para o leilão.

Representantes do governo e instituições financeiras viram o resultado como mostra de confiança de investidores na retomada da economia e um indício que a concorrência por outros ativos na sequência também será forte.

"O Brasil voltou para o jogo do investimento internacional", disse a jornalistas o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, logo após o leilão.

Executivos frisaram, além do ágio, a participação de outros investidores, nove ao todo, alguns pela primeira vez, o que desfez o temor de que o modelo de "filé com osso", de lotes com ativos com alto e pouco interesse econômico, espantasse os lances.

Além da própria Aena, entraram no leilão desta sexta-feria o Patria Investimentos e o grupo alemão PSP/AviAlliance por meio do consórcio Região Nordeste; a francesa ADP, que administra o aeroporto de Paris, além dos já conhecidos Vinci, Fraport e Socicam/Sinart, que arrematou o lote Centro-Oeste.

"O governo federal também foi vencedor, pois o leilão atraiu taxas de concessão relativamente altas de grupos tradicionais que já atuam no Brasil e de recém-chegados", afirmou o BTG Pactual em nota a clientes.

Além da outorga mínima, o governo estima investimentos totais de 1,5 bilhão de reais nos terminais nos próximos cinco anos e de 3,5 bilhões durante a concessão de 30 anos. Em conjunto, os aeroportos leiloados respondem por 9,5 por cento do mercado doméstico.

O certame pode de fato dar bons presságios ao governo para vendas e concessões de ativos nos próximos anos. Só em aeroportos, serão duas novas rodadas para transferir 36 terminais para o setor privado entre 2020 e 2022.

A primeira delas será aberta na próxima segunda-feira, para culminar no leilão no segundo semestre do ano que vem, disse o secretário Especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), Adalberto Vasconcelos.

Nesta fase serão licitados três lotes: no Sul do país com os terminais de Curitiba, Foz do Iguaçu, Londrina; Joinville, Navegantes, Bagé, Uruguaiana e Pelotas. O Centro-Oeste/Nordeste tem os terminais de Goiânia (GO), Palmas (TO), São Luís (MA), Teresina (PI), Imperatriz (MA), Petrolina (PE). E o do Norte do país com os terminais de Manaus, Tabatinga, Tefé, Porto Velho (RO), Boa Vista (RR), Rio Branco (AC) e Cruzeiro do Sul (AC).

Para 2021-22, outros três lotes devem ser licitados, com os mais cobiçados, de Congonhas, na capital paulista, o Santos Dumont, no Rio de Janeiro, ficando por último.

Mas o próximo grande teste para o governo federal na área de logística será o leilão da ferrovia Norte-Sul, que foi confirmado para o próximo dia 28, na própria B3.

"Teremos pelo menos dois concorrentes nesse leilão", disse Vasconcelos à Reuters.

Entre as derrotadas do dia estiveram a CCR, que concorreu pelos lotes Nordeste e Sudeste, sem sucesso, o mesmo acontecendo com a Fraport. E a Vinci, que disputou apenas o lote Sudeste, ficou na última colocação.

Em nota, o Credit Suisse avaliou que, embora a derrota possa ser interpretada como negativa num primeiro momento para a CCR, as propostas mais conservadoras da empresa são um bom sinal, "especialmente considerando as oportunidades de investimento no setor de estradas e mobilidade urbana, onde deve haver uma concorrência significativamente menor".

Às 16:41, a ação da CCR tinha queda de 1,6 por cento, enquanto o Ibovespa subia 0,4 por cento.

 

(Com reportagem adicional de Paula Arend Laier)