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A perspectiva de aumento da demanda e reformas econômicas aquecem movimento de fusões e aquisições no País. Porém, insegurança jurídica e turbulência política ainda são entraves aos investimentos.

“Após quase quatro anos de mercado não tão atrativo, vemos investidores aproveitando janelas de oportunidades e alguns setores recebendo maior atenção. As reformas econômicas trazem mais confiança a esse processo”, afirma o sócio e economista da empresa de investimentos e gestão TCP Latam, Ricardo Jacomassi.

Nesse cenário, ele aponta o setor de energia como um dos principais destaques. “Vemos negócios em energia elétrica e petróleo muito aquecidos. Qualquer incremento no PIB vai demandar mais energia e várias empresas estão se movimentando, especialmente nos segmentos de renováveis e refino.”

Outro setor onde estão ocorrendo fusões e aquisições é o agronegócio. “O Brasil é um grande player e atrai muitos investimentos. O segmento do café, por exemplo, está gerando muitas oportunidades em função da propensão do aumento do consumo na Ásia. Também vemos muitos negócios no segmento de sementes, com empresas se movimentando para ganhar escala e capilaridade”, assinala Jacomassi.

O sócio do escritório Dias Carneiro Advogados, Eduardo Zilberberg, avalia que as agendas de reformas e de privatizações promovidas pelo governo federal têm incentivado essa movimentação. “O mercado ficou em compasso de espera durante as eleições e se tranquilizou com a definição de um programa econômico mais liberal. Além das reformas, as privatizações têm impulsionado investimentos. Vemos uma onda de empresas chinesas fazendo aquisições no setor de energia renovável.”

Ele também aponta o baixo patamar da taxa básica de juros como fator relevante nesse panorama. “Deixou de compensar deixar dinheiro na renda fixa, faz mais sentido alocar investimentos na área privada. Várias operações que estavam em espera estão ocorrendo.”

Entraves

Jacomassi acredita que o momento de estagnação econômica e turbulência política por qual o País passa influencie negativamente em decisões de investimentos. “Esse ruídos fazem com que o mercado acabe esperando. Mas, olhando a demanda de longo prazo, é preciso tomar a decisão agora”. Ele também vê na combinação entre ativos com preços baixos e a taxa de juros um incentivo para as negociações.

O maior símbolo da interferência negativa da política é o apagão no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que está desde julho sem quórum para avaliar fusões e aquisições, em função da demora para nomear e sabatinar novos conselheiros. “É uma situação que atrapalha, para determinados setores é fundamental ter agilidade. Cria até insegurança jurídica”, diz Jacomassi.

Zilberberg destaca que essa insegurança jurídica e o crescimento abaixo do esperado acabam travando o ambiente. “Mas acredito que a tendência do volume de negócios é aumentar, há uma preocupação de reduzir a burocracia. Um dos objetivos da MP da liberdade econômica é alterar a regra de responsabilidade limitada de forma a reduzir o risco ao investidor.”

Ele observa que há uma movimentação maior na alocação de capital no mercado interno. “Também há aporte de capital estrangeiro, mas ainda há certo receio desses investidores.”

O sócio do escritório Candido Martins Advogados, Henrique Martins, espera que o final do ano seja mais aquecido. “Com aprovação da reforma da Previdência e, talvez, da Tributária, o mercado de capitais deve voltar e destravar a economia. O ano não será tão animador quanto o esperado, mas está caminho certo.”