Publicado em

Responsáveis por 75% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2018, as atividades do comércio e dos serviços não deverão reagir só com a nova Previdência. Sem estímulos ao consumo ou desonerações às empresas, a expectativa é que, tal qual a reforma trabalhista, as mudanças na seguridade social tenham baixo apelo para destravar a economia.

Entidades, especialistas e consultores ouvidos pela reportagem ressaltaram a importância da reforma, mas acham que a medida tem efeito maior apenas para investimento estrangeiro e mercado financeiro. “Para atividade de comércio e serviços, o impacto no curto e médio prazo é mínimo”, disse o professor de economia e coordenador do Núcleo de Pesquisas do Varejo da Retail2G0, Gerson Galli.

Ele usa como argumento o que se deu no País após a reforma trabalhista, aprovada pelo presidente Michel Temer em 2017 e que à época previa a criação de 6 milhões de empregos. “O IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia Estatística] mostra que, em dois anos, a reforma trouxe pouco mais 1 milhão de vagas”, disse Galli, lembrando que muitas das vagas abertas tinham menos benefícios e isso reduziu o poder de compra das famílias.

Para que o nível da atividade em comércio e serviços dispare, a avaliação do ex-conselheiro do Clube dos Dirigentes Lojistas de São Luís Cristian Souto é que seria necessário estímulo público. “No varejo chamamos isso de ‘choque de consumo’, quando há fatores externos que estimulam as pessoas a comprarem. Isso não acontece quando não há perspectiva de emprego e inadimplência alta”, conta.

Sobre a Previdência, tratada pelo governo federal como salvação da crise, Souto se mostra um pouco cético. “É ótimo para o governo reduzir despesas, mas para minha atividade pode ser até prejudicial”, dispara, acrescentando que a imagem ruim da reforma pode baixar o consumo no curto prazo.

Diante desse impasse, os empresários seguem em compasso de espera, cautela que pode ser vista nos indicadores de confiança dos varejistas e prestadores de serviços, e deve ser cravada amanhã (9), com a divulgação das vendas do Varejo Ampliado no primeiro trimestre, que será publicado pelo IBGE (veja o desempenho dos setores no gráfico).

E agora, José?

Para que haja esse “choque de consumo”, os especialistas apontam a necessidade da interferência da União para capitanear os estímulos. Na última semana, o governo federal anunciou a Medida Provisória da Liberdade Econômica, texto que diminui a burocracia para abertura de empresas e dá mais autonomia para os empresários que sonham em abrir um negócio próprio.

Para a economista Regina Facundes, a abertura desse mercado, com alto desemprego, vai fomentar o “empreendedorismo por falta de opção”. “Essas facilidades estimulam novos negócios, mas sabemos que a taxa de mortalidade das empresas no Brasil é alta. Se esses novos empresários não tiverem estrutura para manter a operação, há chances de quebrar, o que piora o nosso quadro de emprego”, alerta.

De acordo com estimativas do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o nível de mortalidade dessas empresas no Brasil é de 27%, taxa muito superior aos 10% verificados em nações mais desenvolvidas economicamente. “Esse índice tende à crescer com a entrada de mais empresários”, alerta Regina.

Para ela, boas medidas externas à empresa e de estímulo ao consumo passam pela redução do juro para pessoa física, renegociação da dívida dos inadimplentes e programas de incentivos como o “Construcard”, para construção civil, ou o “Minha Casa” cartão para compra de eletrodomésticos para pessoas de baixa renda. “Não estou dizendo que o governo deva repetir os erros das desonerações exageradas do governo Dilma, mas é preciso entender que gastar com a classe menos favorecida eleva a injeção de capital na economia quase imediatamente.”

Segundo um estudo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a cada R$ 1 gasto pelo governo com o Bolsa Família são injetados R$ 2,4 no consumo das famílias e adiciona R$ 1,78 ao PIB. “Quando se corta, por exemplo, os repasses da Lei Rouanet – que nem são recursos diretamente públicos – tira-se mais dinheiro da economia, do comércio, dos serviços e do PIB”, disse.

Membro da Frente Parlamentar do Comércio, Serviços e Empreendedorismo, o deputado federal Laércio Oliveira (PP-SE) disse que o desafio é que se dê aos empresários destes ramos importância equivalente ao peso deles no PIB.

Engrossam o coro do parlamentar membros de entidades como Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), na figura de seu fundador, Percival Maricato, além do João Diniz, que é presidente da Central Brasileira do Setor de Serviços (Cebrasse). De acordo com eles, qualquer avanço da economia passa pela melhora dessas atividades.

De dentro do governo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, foca na redução do déficit público e, além da Previdência, conta com investimento estrangeiro nas concessões de infraestrutura. “Quem emprega é o pequeno e médio. Um aeroporto privatizado é bom, mas ele não gerará emprego e renda o bastante para destravar o consumo”, finaliza Souto, da CDL-São Luis.