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O estouro da bolha torna-se uma realidade cada vez mais próxima na saúde corporativa global. Segundo estudo do The Commonwealth Fund, os gastos nessa área totalizam quase 17% do PIB dos Estados Unidos – 5% a mais que a Suíça, o segundo colocado no ranking que reúne 11 países de alta renda. Porém, em uma medida de desempenho do sistema de saúde, os norte-americanos caem para a última posição, graças a barreiras como a limitação no acesso a cuidados primários e os elevados encargos administrativos.

O Brasil não fica atrás e deve conviver, em 2019, com uma inflação médica 12,8% superior ao IPCA, especialmente em razão do aumento do custo decorrente do novo rol de procedimentos aprovado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Doenças cardiovasculares e hipertensão estão entre as maiores fontes de despesas. A corretora AON estima que o valor dispendido com planos arcados pelos empregadores brasileiros subirá em torno de 8%, praticamente o triplo da inflação geral projetada para este ano. A julgar pelo envelhecimento populacional e pelo aumento da prevalência dos planos empresariais – que hoje concentram 67,9% dos beneficiários –, a escalada dos gastos tende a ser progressiva.

Tanto aqui como nos Estados Unidos, o setor de saúde suplementar cresceu historicamente na esteira da expansão da economia, mas amparado em um modelo baseado na descentralização das responsabilidades. Na prática, o funcionário que cuide de sua saúde fora da empresa. O resultado dessa cultura não poderia ser diferente: doenças crônicas, que no Brasil já respondem por 70% dos gastos com saúde, absenteísmo e perda de produtividade no trabalho. Clínicas e prontos-socorros passam a ser autênticos depósitos de problemas não resolvidos. O bode está na sala. Quem se dispõe a enfrentá-lo?

A reação está partindo justamente de quem paga a conta. Porém, mais do que simplesmente adotar novas posturas em relação a seus colaboradores e direcionar o foco para a prevenção, os grandes empregadores ensaiam uma disrupção no mercado. O maior exemplo vem da Amazon, que se uniu ao J.P. Morgan e ao fundo Berkshire Hathaway, do bilionário Warren Buffett, para formar uma empresa própria de saúde. O objetivo da Haven é aprimorar o acesso dos profissionais das três corporações à assistência clínica e medicamentosa, além de propor uma nova percepção sobre os hábitos e o cuidado com a saúde.

Para liderar esse projeto, foi escolhido o renomado cirurgião Atul Gawande, professor da Universidade de Harvard e um crítico ferrenho da ineficiência do sistema de saúde. Nada mais emblemático. O projeto teve início contemplando 1,2 milhão de colaboradores, mas já há planos de estendê-lo por meio do engajamento com seguradoras e indústrias farmacêuticas.

Em agosto do ano passado, a General Motors tomou a decisão de cortar o intermediário em sua cidade natal. A montadora firmou acordo com o Henry Ford Health System, uma rede de seis hospitais da região de Detroit, para atender diretamente seus funcionários e eliminar as seguradoras do processo. O contrato de cinco anos prevê cobertura integral – de consultas médicas a procedimentos cirúrgicos –, metas de qualidade e de redução de internações, marcação obrigatória de consultas para o mesmo dia ou o dia seguinte, e melhora no controle de pressão alta dos pacientes. O custo para os empregados deve ser de R$ 300 a R$ 900 mais econômico na comparação com modalidades convencionais de benefício.

O mercado norte-americano oferece ao Brasil mais um exemplo do que deve ser feito para transformar a saúde corporativa. Não há mais lugar para acomodar bodes.