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Por Josh Horwitz e Sijia Jiang

XANGAI/HONG KONG (Reuters) - Desde que o governo dos Estados Unidos colocou a Huawei em uma lista negra comercial, proibindo empresas norte-americanas de fazer negócios com ela, os líderes da China têm falado sobre a auto-suficiência do país no setor de semicondutores.

Mas os especialistas do setor estão menos otimistas a respeito da capacidade dos fabricantes chineses de chips atenderem rapidamente ao desafio de suprirem todas as necessidades da Huawei e de outras empresas de tecnologia do país.

Prospectos de ofertas de ações de empresas de chips chinesas caracterizam a indústria doméstica como "relativamente atrasada", sem talento e exigindo "muito tempo para recuperar o atraso".

Engenheiros de chips chineses contam histórias de manufatura local que não são muito boas, enquanto analistas apontam as muitas áreas em que a China continua dependente de tecnologia dos Estados Unidos, Taiwan, Coreia do Sul, Japão e Europa, com alguns questionando se as políticas do governo chinês vão funcionar.

"Comparado com as restrições de equipamentos, materiais ou talentos, acho que o que mais falta na China é o entendimento sobre a indústria", disse Gu Wenjun, analista-chefe da consultoria ICWise, de Xangai. Ele chamou alguns dos subsídios do governo para a indústria de "contra-produtivos", porque muitos empreendimentos bem financiados acabam perseguindo o mesmo talento.

Os apelos do governo ao patriotismo também só funcionam até certo ponto.

Um ex-engenheiro de alto escalão da Unisoc, empresa de design de chips da China, disse à Reuters que a empresa frequentemente é encorajada a usar chips de memória de uma empresa-irmã. Mas essa empresa, chamada Guoxin, não consegue oferecer tecnologia avançada o suficiente.

"Os discursos internos sempre foram 'Por favor, olhem para a Guoxin porque queremos apoiar a cadeia de suprimentos chinesa'", disse o engenheiro. "Mas nunca conseguimos nada que pudéssemos usar." As empresas não responderam aos pedidos de comentários.

Funcionários da indústria de chips fora da China dizem que o país está fazendo um bom progresso em algumas áreas e não deve ser subestimado. Para um tipo chave de chip de memória conhecido como NAND, por exemplo, as empresas chinesas estão fechando a lacuna do mercado.

"O dinheiro não é um problema para o governo chinês", disse um executivo de uma fabricante de chips de memória sul-coreana que não quis se identificar, reconhecendo o progresso da China em chips NAND, que armazenam dados a longo prazo. "Não podemos parar as empresas chinesas, é uma competição livre, mas acreditamos que temos uma tecnologia melhor e um produto melhor."

 

FALTA DE TALENTOS

A escassez de talentos surge repetidamente, com alguns analistas observando que levou décadas para empresas japonesas, sul-coreanas e taiwanesas desenvolverem seus conhecimentos. A China tem procurado recrutar grandes talentos estrangeiros, especialmente de Taiwan e da Coreia do Sul, com contratos lucrativos, mas nem sempre conseguiu.

A chinesa CXMT, fabricante de chips de memória DRAM, tentou recrutar um ex-engenheiro de chips da Samsung no ano passado, mas a empresa sul-coreana obteve uma liminar para impedir a contratação em janeiro.

O Tribunal Distrital de Suwon, na Coreia do Sul, aceitou o pedido da Samsung para impedir que Kim Chi-wook, que comandava o projeto DRAM, se juntasse à empresa chinesa e ordenou que ele não trabalhasse para a empresa até novembro deste ano.

Samsung e CXMT se recusaram a comentar. Kim não pôde ser encontrado.

Para microprocessadores, os chips mais complexos, a Huawei desenvolveu designs de ponta para uso em seus chips Kirin, que alimentam muitos de seus telefones de última geração. Mas ainda depende de empresas estrangeiras para a propriedade intelectual e produção.

Eric Yang, que investe em empresas chinesas de chips na Glory Ventures, empresa de capital de risco, diz que a natureza complexa dos microprocessadores contemporâneos "system-on-a-chip" oferece às empresas detentoras dessa tecnologia uma vantagem difícil de superar.

"É preciso muito know-how para construir um bom chip", diz Yang, observando que eles incluem áreas separadas para CPUs, GPUs e vários outros componentes. "A Qualcomm pode ter 800 pessoas trabalhando em uma parte do chip. Se você não tem o talento você não consegue ganhar, e todo o talento está nos EUA."