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PORTO PRÍNCIPE - A agricultura familiar é a única esperança do Haiti para tentar reerguer sua economia, que já era precária e foi devastada pelo terremoto que abalou o país na terça-feira da semana passada.

De acordo com dados do governo dos Estados Unidos, dois terços dos haitianos sobreviviam, antes do terremoto, em função do setor agrícola - que tinha sido fragilizado em 2008 pela passagem de quatro furacões pelo país, o que interrompeu uma série de anos de crescimento econômico iniciada em 2005.

O Escritório Regional para a América Latina e o Caribe da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) pediu ontem aos doadores internacionais US$ 23 milhões para a agricultura no Haiti.

Em nota à imprensa, a FAO lembra que as consequências do terremoto serão sentidas no setor agrícola e que, no Haiti, o plantio começa em março. "Os recursos são necessários para apoiar a produção alimentar no campo e cidade, não apenas nas áreas atingidas, mas também naquelas que não foram diretamente afetadas e que, ainda assim, sofrerão as consequências do colapso da capital [Porto Príncipe]."

Por enquanto, antes que possa atuar efetivamente na recuperação econômica, o Haiti continua a contabilizar as enormes perdas provocadas pelo terremoto. As equipes de resgate que trabalham no país concluíram as buscas por sobreviventes em 60% das áreas afetadas pelo tremor de terra, tanto na capital Porto Príncipe como em localidades vizinhas também atingidas.

Ao todo, 70 pessoas foram tiradas com vida dos escombros dos prédios derrubados pelo tremor. "É um número recorde de pessoas achadas vivas após um terremoto", disse Elizabeth Byrs, porta-voz do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários.

Em comunicado divulgado ontem, a Organização Mundial da Saúde (OMS), ligada à ONU, estimou que o tremor deixou de 40 mil a 50 mil mortos.

Na sexta-feira , a Organização Pan-Americana de Saúde afirmou que o total de mortos poderia chegar a 100 mil.

Cerca de 37 mil mulheres grávidas que perderam sua casas no terremoto estão espalhadas pelas ruas, expostas à falta de comida, água potável e atendimento médico, alertou a ONG Care.

Ajuda emergencial

As agências humanitárias da ONU lançaram um apelo emergencial por US$ 550 milhões na sexta-feira para ajudar os sobreviventes do terremoto no Haiti.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, chegou ontem ao país com o objetivo de percorrer as ruínas da sede da missão da entidade em Porto Príncipe e ter um encontro com o presidente René Preval.

Ban pretende fazer com presidente haitiano um balanço das necessidades mais imediatas e visitar o local que abrigava a sede da Missão de Establização da ONU no Haiti (Minustah), que foi destruída por completo, deixando 40 mortos e 330 desaparecidos.

Segundo Ban, as prioridades da ONU são salvar a maior quantidade possível de pessoas, levar urgentemente ajuda humanitária -água, alimentos e os medicamentos necessários- e coordenar a ajuda estrangeira que chega em toneladas ao país, e acaba presa no aeroporto pela falta de infraestrutura para distribuição.

O secretário-geral disse ainda que se prepara "para o pior" diante de mais de 330 funcionários da organização que continuam desaparecidos.

"Esta é a mais grave e maior perda em um único dia na história de nossa organização", disse Ban, que anunciou anteriormente a morte de 37 funcionários.

Brasil ficará até 2015

A destruição provocada pelo terremoto vai exigir que o Exército brasileiro fique no Haiti por pelo menos mais cinco anos, segundo o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao voltar ao Brasil depois de visitar Porto Príncipe. O Exército nacional tem no país 1.250 homens, que fazem parte da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), organizada para garantir a segurança e a transição pacífica, após conflitos entre gangues e grupos políticos na década de 1990.

O mandato da missão vai até 2011, mas Jobim acredita que será impossível retirar a força de paz antes de 2015. O ministro deverápedir ao presidente Lula a ampliação das ações no Haiti.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) informou que suspendeu temporariamente suas missões no Haiti. A empresa desenvolve programas que visam a melhorar o sistema de produção com sustentabilidade no país caribenho.

A Embrapa Hortaliças, por exemplo, colabora com a revitalização da fazenda experimental do governo haitiano. A base do projeto é a transferência de tecnologia para milho, arroz, feijão e mandioca. Todas as variedades foram selecionadas e adaptadas ao clima tropical das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil, semelhante ao do Haiti.

De acordo com o pesquisador Nuno Madeira, da Embrapa Hortaliças, não houve prejuízo físico ou estrutural para a fazenda com o terremoto. No entanto, as atividades no local, que teriam início em março e iriam até o final deste ano, terão suas datas alteradas.

Zilda Arns é enterrada

A médica e fundadora da Pastoral da Criança Zilda Arns Neumann foi enterrada sábado no Cemitério da Água Verde, em Curitiba, após um velório de 28 horas no Palácio das Araucárias, sede do governo do Paraná. Ela morreu em consequência do terremoto que aconteceu no Haiti.

Inicialmente prevista para ser uma cerimônia restrita aos parentes e amigos mais próximos, o sepultamento reuniu mais de 200 pessoas. Centenas de admiradores aplaudiram a urna, quando ela saiu em cima de um caminhão do Corpo de Bombeiros do centro da cidade. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve no Palácio das Araucárias sexta-feira à noite no velório de Zilda Arns.