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Em tom amistoso, o encontro entre Jair Bolsonaro e Donald Trump deu luz a uma série de potenciais medidas de aproximação entre as nações. O apoio norte-americano, no entanto, pode esconder uma medida prejudicial para o Brasil: o fim dos benefícios de países em desenvolvimento garantidos pela Organização Mundial de Comércio (OMC).

No encontro entre os líderes das duas nações, que se deu ontem em Washington, Trump afirmou que irá ajudar a colocar o Brasil em posição de “importante aliado da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte]”.

“Como eu disse ao presidente Bolsonaro, eu também pretendo designar o Brasil como um importante aliado da Otan. Eu precisarei falar com muitas pessoas, mas criará avanço consideravelmente a segurança e cooperação entre nossos países.”

Trump também reiterou o apoio dos Estados Unidos à entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mas sem dar mais detalhes. “Eu estou apoiando os esforços deles [brasileiros] para entrar [na OCDE].”

Apesar do movimento, uma questão que tem sido tratada nos bastidores do encontro entre os presidentes seria a abdicação brasileira dos benefícios garantidos pela OMC no comércio mundial para economias em desenvolvimento. Para especialistas ouvidos pela reportagem, tal medida seria muito prejudicial. “Trump tem aumentado o cerco contra a flexibilização dada pela OMC às nações emergentes, muito em função da diminuição da competitividade norte-americana com tais atos. O que ele quer é que o Brasil tenha as mesmas condições que eles na briga pelo comércio internacional”, afirmou o professor de relações internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Caetano Sobral.

Na visão do acadêmico, neste momento, as entradas na OCDE ou na Otan são importantes, mas nem de perto tem um efeito tão relevante quanto a manutenção da situação atual na OMC. “Os ganhos econômicos com a permanência na Organização Mundial do Comércio nem se compara à presença na OCDE e na Otan.”

Ontem o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, minimizou eventual efeito da OMC, e disse que o Brasil continuaria a integrar a Organização ainda que abra mão de algumas vantagens comerciais. “Não seria perda da OMC. Seria o Brasil sentar à mesa que vai decidir a reforma da OMC. Seria a OMC de uma maneira mais realista”, afirmou Araújo, em rápida entrevista em frente à Casa Branca.

Em um outro diálogo durante a visita da comitiva brasileira aos Estados Unidos, o representante de comércio dos EUA, Robert Lighthizer, teria dito ao ministro da Economia Paulo Guedes que a condição de entrar na OCDE era abrir mão do tratamento especial “e diferenciado que dá OMC.”

Segundo fontes que estavam no local, a resposta de Guedes teria sido enfática: “Mas não tem essa troca, ele que está fazendo essa demanda.”

Há alguns meses o presidente norte-americano enfrenta uma cruzada para tentar diminuir os benefícios da OMC. Hoje, nações como Coreia do Sul e Qatar – que têm renda per capita de US$ 29,9 mil e US$ 61 mil – se auto declaram nações em desenvolvimento e participam de negociações mundiais com pré-requisitos diferenciados.

A ideia de Trump é que esses critérios para avaliar a situação econômica dos países seja mudado, inclusive defendendo que os membros da OCDE não possam estar na OMC em tal condições. A ideia também é que as nações que são classificados como de alta renda pelo Banco Mundial, ou os membros do G-20, também sejam excluídas das medidas para o estímulo econômico dos países emergentes.

Nessa lógica, Brasil, China, Índia, México, Israel, Chile, Argentina, Coreia do Sul, Turquia, Indonésia, África do Sul, Singapura e Arábia Saudita perderiam o tratamento diferenciado atual.

O principal foco de Trump, nesse caso, é tirar a Índia e a China da situação de benesses. Ele diz que, se nada for feito agora, a autodeclaração das nações sobre desenvolvimento tornará a OMC obsoleta.