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Diante de um projeto espinhoso como a nova Previdência, a popularidade de Jair Bolsonaro se deteriorou mais rápido que o esperado para o início do mandato. A explicação para isso é justamente a morosidade das reformas, fator que eleva a impaciência dos que são favoráveis, e dá espaço de fala para que os contrários à ela ganhem apoio.

“O presidente lida com uma sinuca de bico: quanto mais demora para aprovar as medidas impopulares maior é a chance de rejeição por parte do eleitorado popular e mais cresce o desencontentamento dos eleitores ligados ao mercado”, resumiu o professor de administração pública, advogado e especialista em gestão, César Couto.

A avaliação do professor acompanha uma pesquisa feita pelo Ibope divulgada ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Segundo o levantamento, o percentual dos que consideram o governo ótimo ou bom foi de 35% em abril, abaixo dos índices de presidentes anteriores, eleitos no período pós-redemocratização do Brasil (veja mais no gráfico).

Para o gerente executivo de pesquisas da CNI, Renato da Fonseca, o resultado não é tão atipico, já que se trata de um período sensível de todos o mandatos. "O governo ainda não convenceu essas pessoas a achar que está seguindo em uma agenda que elas gostariam", observou.

Para ele, além da questão das reformas citadas por Couto, a fraqueza da atividade econômica também é fator determinante. "Provavelmente, alguns dos eleitores votando no Bolsonaro achavam que a economia voltaria a crescer imediatamente, o que praticamente é impossível, e essas pessoas estão decepcionadas."

Quem apoia?

Quando avaliado na pesquisa o perfil dos principais apoiadores do presidente estão homens, moradores do Sul do País e de renda maior. Segundo a pesquisa, 44% dos moradores do Sul acham o governo bom ou ótimo, índice que chega a 25% no Nordeste.

Entre os homens o apoio é de 38%, percentual que cai para 32% entres as mulheres. No recorte por faixa de renda, entre os brasileiros com renda superior a cinco salários mínimos a aprovação bate 45%.

“Temos aqui um recorte que se assemelha muito ao processo eleitoral e que se manteve também em função do acirramento da polarização política muitas vezes incitada pelo próprio presidente”, afirmou a cientista político e ex-professor da UnB, Mara Magalhães.

De acordo com ela, o indicador de Bolsonaro não é ruim, mas tende a piorar. “A popularidade cair é muito natural em todos os governos. A Dilma disse uma vez que baixa popularidade não é crime, mas uma impopularidade muito acentuada pode inviabilizar o governo”, comenta.

Tanto Mara quanto Couto concordam que agora, a melhor estratégia do governo seria ganhar novos apoios. “Muitas pessoas anularam o voto, mas podem ser convencidas de que o governo é eficiente. O problema é que quanto mais o governo demora para avançar com medidas que melhorem a situação econômica, maior a chance de perder apoio até dos seguidores mais ferrenhos”, afirmou a professora.

Na avaliação por área de atuação, as medidas de segurança pública são as melhores avaliadas, com 57% de aprovação, enquanto as áreas com maior desaprovação são taxa de juros (57%) e impostos (56%). O Ibope ouviu 2 mil pessoas entre 12 e 15 de abril. A margem de erro é de dois pontos porcentuais.