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A abertura da Copa América em São Paulo teve a presença do presidente Jair Bolsonaro, mas, ao seu lado, estava o vice-governador do Estado, Rodrigo Garcia, e não o titular do posto. É que João Doria Jr. teve outro compromisso, no Rio de Janeiro no mesmo horário. O tucano foi o homenageado de um jantar para 400 pessoas oferecido pelo empresário Paulo Marinho e sua mulher, Adriana, na casa de ambos no Rio de Janeiro.

Marinho é o primeiro suplente de Flávio Bolsonaro (PSL) no Senado. O jantar em homenagem a Doria marca seu ingresso no PSDB e a missão, conferida pelo governador, de revitalizar o partido no Rio com novas filiações e mais capilaridade entre formadores de opinião. Doria recebeu o título de Cidadão do Rio de Janeiro, conferido pela Câmara Municipal, mas entregue excepcionalmente fora do Legislativo.

A casa que recebeu advogados, jornalistas, cineastas, músicos, integrantes do mercado financeiro, empresários e políticos para ouvir Doria é a mesma que Marinho emprestou, na campanha do ano passado, para as gravações dos programas de TV de Bolsonaro.

Entre os convidados, ex e atuais aliados do presidente, como o ex-ministro Gustavo Bebianno e a líder do governo no Congresso, deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), confraternizavam e conversavam amistosamente.

Filho do anfitrião imita presidente

Não faltou nem espaço para a “participação” do próprio Bolsonaro nos discursos da noite. O filho do anfitrião, André Marinho, conhecido por sua acurada imitação presidencial, “encarnou” o personagem famoso e não deixou de fora nem uma sutil crítica política: “Soube que sua reunião de secretariado tem relógio para atraso, tem apito, tem multa. Eu só falo pro 02 dar um tuíte e tá resolvido isso daí. Já foram dois. Você está entre o Santa e o Cruz”, disse o jovem, como se fosse Bolsonaro, numa referência aos desentendimentos com Carlos Bolsonaro que ceifaram dois ministros (Bebianno e general Santos Cruz).

Joice abriu sua fala fazendo menção ao fato de ser uma espécie de estranha no ninho de novos e velhos tucanos. “Estou aqui com essa patota do PSDB, mas sou PSL”, disse. Ela lembrou que foi na casa de Marinho que nasceu a aliança “Bolsodoria” no segundo turno da eleição presidencial. “O que une esses dois (Doria e Bolsonaro) é uma amizade profunda, leal e honesta”, afirmou ela.

De qualquer maneira, qualquer sinal de “Bolsodoria” parecia ter ficado no passado ontem, no discurso do homenageado - e na própria decisão de trocar o “teste do estádio” ao lado do presidente para estar na base eleitoral dele.

O governador fez um longo histórico de sua vida e das condições que o levaram a trocar a iniciativa privada pela política, vencendo duas eleições em dois anos. Deu tons épicos à narrativa de alguém que começou a trabalhar aos 13 para ajudar a mãe a pagar a conta de luz, dizendo a um público novo que o PSDB, sob o comando de seu aliado Bruno Araújo, também presente, não estará mais no muro.

A fala, longa, proferida no bonito jardim do casal Marinho, foi marcada por dois vigorosos assobios de Doria para pedir silêncio para o público eclético, que mesclava quem prestasse atenção à sua fala, os que se refrescavam com champanhe Taittinger Brut geladíssima, ceviche e carpaccio de vieira, e até um incauto que caiu no lago de carpas da mansão. O jantar só foi servido depois dos discursos.

Centro liberal e escalada política de Doria

A sucessão de 2022 esteve presente nos apelos de Paulo e André Marinho para que Doria dê continuidade à sua escalada política e, subliminarmente, na maneira como o próprio governador fez questão de acentuar as diferenças entre ele e Bolsonaro em seu discurso. Numa das mais incisivas falas com esse objetivo, fez referência duas vezes ao fato de seu pai ter sido cassado pelo “golpe militar de 1964”, fazendo questão de dar uma ênfase na palavra “golpe”.

Também disse que o PSDB será um partido de centro liberal, marcando uma distância ideológica em relação à direita bolsonarista, e acentuou a necessidade de se ter uma abordagem, que chamou de “não paternalista”, para reduzir a pobreza e a desigualdade no Brasil.

Um dos momentos em que foi mais aplaudido foi na enfática defesa que fez do ministro Sérgio Moro, que enfrentou uma semana de questionamentos por conta do vazamento de conversas entre ele e integrantes da Lava Jato. “Moro não fez nada de errado, ele ajudou o Brasil”, disse o homenageado da noite, anunciando que telefonou ao ex-juiz para anunciar que lhe dará a Ordem do Ipiranga, uma das mais prestigiosas comendas do Estado de São Paulo.

O controle da articulação pela reeleição de Bruno Covas (PSDB) à Prefeitura de São Paulo levou o governador João Doria (PSDB) a pedir o afastamento de João Cury Neto da Secretaria da Educação do município. Desafeto de Doria e expulso do PSDB em 2018, Cury havia ganhado de Covas a secretaria depois de exercer o mesmo cargo no governo do Estado durante a gestão de Márcio França (PSB).

Cury deve deixar a secretaria e ocupar um cargo mais discreto no Executivo e despachar próximo ao prefeito. Em 30 de abril, o secretário havia sido condenado por improbidade administrativa em 2.ª instância, por decisão do Tribunal de Justiça, em razão de supostas irregularidades na compra de material didático para Botucatu, quando Cury era prefeito da cidade - ele alega inocência.

A condenação não havia sido suficiente até agora para que Cury fosse afastado. O secretário está atuando como coordenador informal do núcleo que tratava do futuro de Covas, contatando empresários em busca de apoio e começando o trabalho de marketing. Participou da escolha do marqueteiro Felipe Soutelo, encomendando os primeiros trabalhos sobre a imagem do prefeito.

Uma primeira pesquisa também foi encomendada pelo grupo, que apontou um fraco desempenho do prefeito em um cenário em que seriam candidatos Celso Russomanno (PRB), Janaína Paschoal (PSL), Fernando Haddad (PT) e Márcio França (PSB).

O trabalho independente e as relações de Cury com o ex-governador Geraldo Alckmin fizeram com que Doria pedisse a Covas a sua substituição. A relação de Cury com Alckmin começou quando o ex-secretário foi escolhido para chefiar a Fundação para o Desenvolvimento da Educação.

Responsável por todas as licitações de compras de material escolar e merenda e pelas reformas de prédios, Cury entrou em atrito com o então secretário José Renato Nalini, que pediu por escrito a sua demissão ao governador. Nalini estava descontente com nomeações feitas por Cury para o FDE. Alckmin o manteve. Quando o governador decidiu disputar a eleição presidencial e deixou o governo para Márcio França, Cury acabou nomeado para o lugar de Nalini.

João Cury abriu mão de uma candidatura a deputado federal pelo PSDB para ser secretário de França em plena campanha à reeleição. A decisão irritou Doria, que articulou a expulsão dele do PSDB. Após a eleição, Cury se reaproximou de Covas, antigo aliado.

“Cury foi expulso por optar por uma candidatura de outro partido em detrimento do PSDB. Ação considerada transgressão ética irrefutável na disciplina partidária”, disse o presidente do PSDB-SP, Marco Vinholi.

A gestão de Cury na Educação do Estado foi também motivo de dor de cabeça para Doria. Quando ele assumiu o governo, descobriu que a secretaria só havia licitado a compra de material escolar para a capital, deixando de lado os demais municípios do Estado, o que incomodou o governador.

Quando descobriu que Cury passou a articular a candidatura à reeleição de Covas, Doria procurou o prefeito para exigir que Cury fosse afastado, ou que pelo menos não ficasse mais à frente de nenhum cargo importante na Prefeitura. O grupo do secretário de Governo, Mauro Ricardo, ainda tentou nomear para o cargo o atual secretário adjunto, Daniel de Bonis, mas a manobra foi descartada pelo prefeito com temor de que fosse compreendida por Doria como uma forma de “manter” Cury na secretaria. O nome escolhido para substituí-lo é Bruno Caetano, ligado ao senador José Serra (PSDB).

De Bonis, porém, deve ser mantido como secretário adjunto. Cury foi importante na adoção do modelo descentralizado de entrega de frutas, legumes, vegetais e ovos para as creches conveniadas da Prefeitura, um gasto de R$ 100 milhões por mês.

O jornal O Estado de São Paulo procurou Cury, Alckmin e a Prefeitura sobre o caso. Os dois primeiros não se manifestaram. A secretaria do município confirmou a saída de Cury. Procurada, a gestão Doria informou que “não lhe cabe fazer juízo de valor sobre o passado”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.