Publicado em

A disputa eleitoral deste ano manteve tendência de alta no descrédito político dos eleitores, traduzido nos votos em nulo ou branco e o não comparecimento aos locais de votação. Somados, os mais de 40 milhões de “não votos” poderão ou desequilibrar a balança do segundo turno, ou mantê-la no mesmo ponto.

Mais de 29,9 milhões de brasileiros deixaram de comparecer nesta disputa. É o equivalente a 20,33% do universo de eleitores que estavam aptos a votar. Dos 117 milhões de votantes, 3,1 milhões declararam voto em branco e 7,2 milhões optaram por anularem suas escolhas. Somados, são 8,79%.

Em São Paulo, colégio eleitoral que sozinho é quase o Nordeste inteiro, 7 milhões não saíram de casa para votar. Foi o maior índice de evasão do País. Vale ressaltar que o número de evasão do voto vai diminuindo conforme os cargos em disputa. Para deputado federal e estadual, a taxa de brancos e nulos ficou entre 18% e 19%. Quando o momento foi de escolha do senador, a taxa subiu para 31,88%. Com os governadores, a soma deu 20,62% e para presidente, apenas 9,94%.

Especialista em comunicação política, Roberto Gondo indica que dificilmente esses eleitores que deixaram de votar estarão influenciando o segundo turno entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). E essa tendência só será diferente caso a disputa fique muito acirrada na reta final.

“Dentro de uma métrica histórica, o índice de brancos e nulos fica sempre entre 12% e 18%. Toda eleição vai ter um percentual de pessoas que não querem votar. Ou vão votar e deixar em branco, ou anular. Agora, se nos cinco dias finais da eleição os dois estiverem muito emparelhados nas pesquisas, Bolsonaro e Haddad podem puxar um percentual significativo de eleitores que vote contra quem ele não goste”, avaliou o professor da Universidade Mackenzie.

Descartados

No Brasil o voto é obrigatório, implicando nos índices de não compromisso com o processo. Os votos que não estão depositados em um candidato são simplesmente descartados.

Especialistas acreditam que uma reforma política, que reveja o modelo de voto – como uma alteração para os sistemas distrital, distritão, adoção de lista aberta ou fechada, por exemplo – poderiam atrair esse eleitor que hoje não se interessa em entrar no debate.

“Nosso sistema ainda é de voto obrigatório. Acredito que em um sistema de voto facultativo, só votem pessoas que tenham interesse e esses dados de brancos e nulos diminuam. Agora, no Brasil podemos ter mais compra de votos, com candidatos levando eleitores a votar apenas para conseguirem se eleger em troca de dinheiro. É um risco que corremos”, apontou Gondo.

Ainda assim, com a disputa acontecendo nos polos do espectro político, tão bem encarnados por Bolsonaro e Haddad, há quem prefira simplesmente não entrar nessa seara. “Estamos vivendo uma polarização. Ao mesmo tempo em que isso faz com que as pessoas fiquem fervorosas, existe aquele que se abstrai do processo”, completou.

Anulação do primeiro turno

Ontem (10), o sexto mais votado na eleição nacional, Cabo Daciolo (Avante), pediu a anulação do primeiro turno. Ele, que recebeu 1,3 milhão de votos e ficou na frente de candidatos com histórico respeitável na vida política, considerou o resultado fraudado, em função da ausência de cédulas de papel na contagem final.

“O sistema de votação eletrônico nunca apresentou comprovação de fraude, desde 1996. O que os candidatos tentam colocar contra a credibilidade das urnas é uma bravata contra o sistema democrático”, ponderou Gondo.