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Tentando retomar um diálogo mais direto com a população, o presidente Jair Bolsonaro fez uma transmissão ao vivo na noite desta quinta-feira, 7, para explicar declaração feita mais cedo na qual disse que a democracia e a liberdade só existem "quando as Forças Armadas assim o querem". Numa tentativa de reduzir os danos da repercussão, ele convocou o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, para participar da gravação e reforçar seu posicionamento.

"Estivemos hoje de manhã no Corpo de Fuzileiros Navais do Rio de Janeiro, comemorando seu 211 aniversário. Usei da palavra e, para variar, vai dar polêmica", disse o presidente. Esta semana, ele se envolveu em outra polêmica ao compartilhar, no Twitter, um vídeo com imagens obscenas e associá-lo aos blocos de rua do carnaval. No dia seguinte, publicou na mesma rede social uma mensagem na qual perguntou "o que é golden shower", expressão em inglês usada para se referir ao fetiche de urinar na frente de um parceiro ou sobre ele.

Sobre a fala de hoje insinuando que a democracia depende da vontade militar, que também gerou reações negativas, Bolsonaro disse que "nós devemos às Forças Armadas nossa democracia e a nossa liberdade". "E assim é em todo lugar do mundo", completou.

Segundo ele, a fala foi levada para "o lado das mais variadas interpretações possíveis". Na sequência, pediu para que o ministro Augusto Heleno, que estava sentado ao seu lado, opinasse sobre o assunto. "Heleno é mais antigo, mais idoso, mais experiente, é uma satisfação tê-lo como ministro. Ele nos aconselha nos momentos difíceis e sempre nos ajuda a encontrar uma solução", introduziu. E, então, perguntou se sua fala foi polêmica e se deixa alguma dúvida de que "estaria no caminho errado".

O ministro do GSI, um dos principais conselheiros do presidente, negou e afirmou que a fala não teve "nada de polêmico". "As suas palavras foram ditas de improviso para uma tropa qualificada e foram colocadas exatamente para aqueles que amam sua pátria, vivem diariamente o problema da manutenção da democracia e da liberdade, caracterizando e exortando para que continuem a fazer o papel que vêm fazendo, de serem guardiões da democracia e liberdade", disse o ministro.

Para Heleno, "tentaram distorcer" a fala de Bolsonaro "como se fosse um presente dos militares aos civis". "Não tem nada disso. As Forças Armadas são por determinação legal e constitucional os detentores do emprego legal da violência, pode chocar alguns, mas isso é o que está escrito e Forças Armadas são responsáveis por essa manutenção", continuou Heleno.

Assim como fez o vice-presidente, Hamilton Mourão, o ministro do GSI citou a situação da Venezuela para minimizar a fala do presidente, dizendo que são os militares venezuelanos que mantém Nicolás Maduro no poder. "Querem um exemplo, vejam a Venezuela, por que Maduro está sendo mantido? Porque as Forças Armadas estão dando segurança presidente quase deposto. Por que Fidel Castro durou tempo que durou? Porque as Forças Armadas cubanas mantiveram a ditadura. De acordo com a tendência das FA isso acaba sendo fator fundamental do regime de um país. Forças Armadas são pilar da democracia e da liberdade", concluiu Heleno.

Bolsonaro retomou a palavra e disse que, assim como falou no evento, os militares serão tratados com "dignidade e respeito".

Civis

O presidente rebateu a participação de militares no governo dele. Segundo ele, há "muitos civis no governo" e há espaço para eles.

"Não vale dizer que tem apenas militar aqui. Agora obviamente, porque eu sou militar, a gente dá uma atenção redobrada aos militares, que fazem o seu trabalho com muito zelo, como muitos civis que estão no nosso governo estão fazendo", afirmou o presidente.

A fala foi feita após Bolsonaro elogiar o trabalho do ministro de Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e do diretor-geral do Departamento Nacional de infraestrutura de Transportes (DNIT), Antônio Leite dos Santos Filho. Ambos têm formação militar.

Lives

Após se envolver em uma série de polêmicas ao longo da semana, Bolsonaro anunciou hoje que fará uma transmissão ao vivo em suas redes sociais todas as quintas-feiras para falar de assuntos variados. Os vídeos terão início sempre no mesmo horário, segundo o presidente, às 18h30.

Na primeira live gravada após Bolsonaro assumir a presidência, o presidente apareceu sentado entre o porta-voz, Otávio Rêgo Barros, e o ministro Augusto Heleno. A gravação foi feita no terceiro andar do Palácio do Planalto.