Publicado em

Enquanto o pai se recupera no hospital, os filhos do presidente Jair Bolsonaro agitam o cenário político. Depois que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) causou polêmica ao aparecer no hospital armado e o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) ser convocado pelos bolsonaristas para assinar requerimento de criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Lava Toga, o vereador do Rio Carlos Bolsonaro dominou o debate político nesta terça-feira, provocando uma avalanche de reações pelo País.

O “filho 02” do presidente ao twitar que “por vias democráticas, a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos” provocou uma reação imediata e até o presidente em exercício, Hamilton Mourão, defendeu que a democracia é “fundamental” e que é “lógico” que é possível fazer mudanças no País por meio do diálogo com o Congresso. Lógico, senão a gente não tinha sido eleito”, disse Mourão ao ser questionado. “Temos que negociar com a rapaziada do outro lado da Praça (dos Três Poderes). É assim que funciona. Com clareza, determinação e muita paciência”, afirmou.

Já o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou que declarações como essa do vereador do Rio causam insegurança aos investidores nacionais e estrangeiros e atrapalham o crescimento do País, o que, na avaliação dele, prejudica os mais pobres. Maia afirmou que os agente públicos precisam ter responsabilidade sobre o que falam. “É uma declaração que não cabe num País democrático.” Maia lembrou que a situação da Venezuela, ao abrir mão de um sistema democrático, fez com que ninguém mais quisesse investir lá.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), rebateu o comentário do filho do presidente dizendo que a democracia está fortalecida no Brasil e manifestou “desprezo” por comentários no sentido contrário. “No Senado, o Parlamento brasileiro, a democracia está fortalecida, as instituições estão todas pujantes, trabalhando a favor do Brasil. Então, uma manifestação ou outra em relação a esse enfraquecimento tem da minha parte o meu desprezo”, disse Alcolumbre quando perguntado sobre o comentário de Carlos. O presidente do Senado ressaltou que confia na democracia e nas instituições.

A presidente nacional do Podemos, deputada federal Renata Abreu, afirmou que foi “lamentável” a declaração de Carlos. “Como deputada federal não posso aceitar esse comentário em silêncio, seja do filho do presidente da República ou de qualquer outro cidadão”. Nós do Podemos, defendemos sempre mais democracia, jamais menos”.

O ex-ministro da Fazenda e ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT-CE) afirmou que “nós vamos ensinar a estes projetinhos de Hitler tropical que o Brasil não é uma fazenda deles e que a democracia é intocável”. “Pilantra!”, Ciro classificou o filho do presidente.

O deputado David Miranda (PSOL-SP), afirmou que não é tolerável que o filho do presidente, “parte dirigente atrapalhada do governo”, dê esse tipo de declaração, e questionou: “o que ele está sugerindo com isso?”. Na mesma linha, o candidato derrotado à Presidência do PSOL, Guilherme Boulos, afirmou que Carlos “expressa o chorume mais autoritário e doentio”, e que ele pode “estar vocalizando desejo de quem governa o País, por isso, deve ser enfrentado com firmeza”.

O relator da reforma da Previdência na Câmara, deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), escreveu que “não há caminho que não seja pela democracia” e que “insinuar qualquer opção que não seja pelas vias democráticas é brincar com o Estado de Direito, que por sinal, é democrático e elegeu o presidente. Comentário infeliz e insensato do filho dele”, diz.

A declaração de Carlos encontrou pouco apoio até no governo. O irmão do ministro da Educação e assessor l da Presidência, Arthur Weintraub, citou o ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill, que disse que “a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”.

A reação foi tamanha que Carlos voltou ao Twitter ontem para tentar explicar e garantiu que sua fala foi apenas uma “justificativa aos que cobram mudanças urgentes”. “O que falei: por vias democráticas as coisas não mudam rapidamente. É um fato. Uma justificativa aos que cobram mudanças urgentes. O que jornalistas espalham: Carlos Bolsonaro defende ditadura. CANALHAS!”, escreveu nesta terça.

Lava Toga

Já a militância virtual bolsonarista se agitou pedindo que Flavio assine requerimento de criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Lava Toga, que objetiva a investigação de “ativismo judicial” por parte de magistrados, incluindo ministros do Supremo Tribunal Federal.

No Twitter, a campanha encabeçada pela #AssinaFlavioBolsonaro foi grande e conta com manifestações de políticos e influenciadores, sobretudo do campo da direita. O candidato derrotado ao governo de São Paulo pelo Novo, Rogério Chequer, pediu aos seus seguidores que anotem e espalhem os nomes dos senadores que não querem assinar o requerimento da Lava Toga “para que não sejam reeleitos”.

Ao compartilhar a nota oficial sobre o tema emitida pelo PSL Nacional, que afirma que o presidente do partido, Luciano Bivar, solicitou a retirada de assinaturas “por entender que a instauração da CPI não agregaria harmonia dos Poderes”, Chequer comentou que a nota “é confissão pública”. “Flávio não assina, tenta convencer outros a retirar, vem Bivar e tenta servir de escudo. Não dá pra esconder a realidade tão patente, fica vexaminoso”, disse o político.

Colega de partido de Chequer e deputado estadual pelo Novo, Heni Cukier afirma que o Senado é “campo minado para Bolsonaro”. “Primeiro, distribuição de cargos/emendas para aprovar Eduardo embaixador. Segundo, indicação de Augusto Aras para PGR. Terceiro, articulação de Flávio para enterrar a Lava Toga”, listou. “Ou você é pró-Lava Jato, ou defende o clã do presidente Os dois não dá!”, reclamou.

O senador Major Olímpio (PSL-SP) compartilhou vídeo no qual, enfático, afirma que “se não enfrentarmos a metástase cancerígena da corrupção que se alastrou também por alguns membros do judiciário, tudo pode ser jogado fora”, afirmou. .