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Economista aposentado e professor convidado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) nas cadeiras de macroeconomia, economia internacional e em pesquisas sobre a 4ª Revolução Industrial, Luciano Coutinho, 72 anos, foi o presidente que mais tempo ficou à frente de um dos maiores bancos de desenvolvimento do mundo: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Elegante até para criticar os rumos que o atual governo tem dado à economia brasileira, Coutinho se disse entristecido com o encerramento das atividades do DCI, veículo com o qual colaborou algumas vezes como entrevistado ou articulista. “Até em homenagem à história do jornal, concedo essa entrevista com muito prazer e lamento muitíssimo o fim desse veículo de tanta importância.”

O atual governo, que tanto criticou a política econômica dos governos do PT e prometeu resolver muita coisa, não conseguiu tirar a economia brasileira do “empacamento”. Como o senhor avalia esse quadro?

Nos governos anteriores houve erros de calibragem. A política fiscal freou quando não deveria ter freado, foi frouxa quando deveria ter sido mais austera – e nem sempre a autoridade percebe o que está acontecendo na economia real com a velocidade necessária e faz os ajustes de maneira tempestiva –, mas havia um projeto de desenvolvimento. O que não vejo no atual governo, e nem vi no governo imediatamente anterior, é um projeto de desenvolvimento que esteja ancorado na parceria produtiva com o setor privado e o governo. Apostou-se numa visão liberal, extremada, especialmente no governo Bolsonaro, que não é capaz de entregar esse projeto de desenvolvimento para o País.

Qual a sua avaliação sobre a política econômica do governo Bolsonaro?

Eu vejo que a atual equipe do governo não tem um projeto de crescimento para o País. Se baseia numa crença ideológica ultrapassada de que a simples privatização e a redução do papel do Estado produzirá por si própria o milagre do crescimento. Todos nós sabemos que investimento em infraestrutura é a mola propulsora principal para uma recuperação da economia brasileira na situação atual. Isso demanda preparação de projetos, estruturação de financiamentos complexos que requer planejamento, uma coordenação do governo. Me parece que o atual presidente do banco está muito bem afinado com o Ministério de Infraestrutura e com a área de saneamento e está buscando que o banco se empenhe no apoio a esses processos. Mas no Ministério da Economia parece pouco provável que tenha uma proposta efetiva de recuperação da economia. As reformas são importantes, mas foram articuladas pelo Congresso. No caso da Previdência, pela Câmara [dos Deputados], com papel importante do presidente [Rodrigo Maia], e agora a reforma tributária também é uma iniciativa muito mais do Congresso que do governo, que parece até um pouco perdido nesse campo.

A economia já começou a sentir efeitos concretos das barbaridades que têm ocorrido no Brasil, como a devastação ambiental e o ataque à democracia, com boicote às exportações, por exemplo. Como o senhor avalia esse momento?

Eu considero, no campo da política ambiental, quanto o governo tem promovido um retrocesso lamentável. No caso da Amazônia, esse incentivo implícito no discurso do governo é, em parte, um dos fatores que levaram a essa ciclo recente de aumento das queimadas na região. Além disso, o desmantelamento do Fundo Amazônia era, num momento de crise fiscal, um esteio importante para um processo de controle e de repressão ao desmatamento. Me parece que nessa área e também na área de Direitos Humanos, na política de querer liberar a posse e o porte de armamento, são iniciativas muito lamentáveis e que eu espero, não prosperem.

E quanto ao rumo que o governo tem dado ao BNDES, como o senhor vê isso?

Não há uma mudança tão substancial com relação ao que aconteceu no governo Temer. Há um processo de encolhimento no tamanho do banco e de devolução de recursos ao Tesouro, o que me preocupa muito porque no momento em que o País precisar investir o que precisa, que é 4,5% do PIB, em infraestrutura, pode faltar financiamento a longo prazo. Eu tenho sérias dúvidas de que o mercado de capitais possa oferecer todo o volume de financiamento necessário. Precisaríamos financiar algo como R$ 350 bilhões/ano para infraestrutura, o que significa que se o BNDES financiasse metade disso [R$ 175 bilhões/ano], o mercado teria de financiar outros R$ 175 bilhões, o que parece pouco plausível.

Os bancos privados brasileiros sempre reclamaram que o BNDES tirava espaço deles, mas também não se dispuseram a financiar o longo prazo, é isso?

O que tem acontecido é que nos últimos três anos o BNDES encolheu substancialmente, a taxa de juros do BNDES foi aumentada para próximo de uma taxa de mercado e o financiamento bancário de longo prazo não se expandiu, ao contrário, o financiamento ao setor privado diminuiu. É verdade que a economia vem num ciclo de recessão e a demanda por investimentos também caiu, mas o fato é que o sistema bancário – até o momento, pelo menos – não mostrou uma pré-disposição para ocupar esse espaço com o financiamento de longo prazo e com condições compatíveis especialmente com projetos de infraestrutura. Falava-se muito que o BNDES era culpado pelo spread muito alto do sistema bancário – a teoria da meia-entrada. Na verdade nós temos aí três anos em que os financiamentos do BNDES se tornaram em vários momentos mais caros que os do mercado e nem os financiamentos de longo prazo aumentaram e nem o spread diminuiu. As hipóteses críticas levantadas à época eram muito frágeis.

O senhor disse que investir em infraestrutura é essencial para o País voltar a crescer, mas os governos estão quebrados e o investimento público é cada vez menor. De onde viria o dinheiro?

Pode vir de concessões ao setor privado com financiamento de longo prazo do BNDES e do mercado de capitais. Que fique claro que não sou contra o mercado de capitais. Fomos nós que tomamos a iniciativa de criar debêntures de infraestrutura. O que precisa é haver uma combinação virtuosa com o BNDES, capacitado a emprestar mais alavancando o mercado. Isso resolve uma grande parte do problema. A outra parte se resolve excluindo do teto de gastos os investimentos em infraestrutura prioritários nesse momento para a recuperação da economia. Eu creio também que a própria recuperação da economia trará aumentos de arrecadação de impostos, resolvendo parte do financiamento. A combinação disso com a redução de juros (ou a economia que se faria com juros mais baixos) é outro fator que pode ajudar a financiar a infraestrutura.

O presidente Jair Bolsonaro vem repetindo que o BNDES tem uma “caixa-preta” que precisa ser aberta. Um dos motivos da demissão do economista Joaquim Levy, em junho, seria não ter aberto a tal caixa preta. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Essa me parece uma questão superada. O BNDES é o banco mais transparente do mundo e a atual gestão manteve um processo de aperfeiçoamento que já vinha desde a minha gestão. O banco é totalmente transparente. Houve várias comissões de apuração [na Câmara dos Deputados]. Foi dada publicidade recentemente ao resultado da última comissão de apuração interna e ela não revelou nenhuma irregularidade com relação, por exemplo, às operações com a JBS [empresa dos irmãos Joesley e Wesley Batista].

O senhor e o ex-ministro da Fazendo Guido Mantega foram acusados de terem autorizado empréstimos do BNDES supostamente irregu- lares para o frigorífico JBS. Como o senhor recebeu essa acusação e como está esse processo?

É um processo que ainda está na primeira instância. O juiz excluiu os funcionários do BNDES por não encontrar nenhum indício de irregularidades. Eu recebi essa acusação com grande indignação e com sentimento de que minha inocência, minha integridade, ficará totalmente comprovada pelo fato de que o BNDES é uma instituição onde os processos são rigorosos, são todos colegiados, são todos técnicos e é inteiramente impossível que um presidente, quem quer que seja, possa determinar sozinho através de uma canetada qualquer tipo de decisão.