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Impedido de ir para as ruas desde a última semana, após sofrer um atentado em Juiz de Fora (MG), o candidato do PSL à presidência, Jair Bolsonaro, agora precisa acionar sua rede de engajamento digital – a maior entre os presidenciáveis – se quiser seguir vivo na disputa e chegar ao segundo turno. O diferencial dele, apontam especialistas, é poder atrair os eleitores indecisos.

Com menos de 10 segundos no espaço de rádio e TV, Bolsonaro conseguiu o que poucos candidatos foram capazes de reunir neste primeiro mês e meio de campanha: a mobilização de pessoas nas ruas e o engajamento de usuários das mídias sociais.

Hoje, o deputado acumula 10,1 milhões de seguidores em suas mídias. Segundo um levantamento do Instituto MAPA e o Mr. Predictions – empresas do setor de Ciência de Dados e Análise Preditiva – o candidato ampliou sua rede de seguidores em 50% desde janeiro. Comparativamente, é menor frente ao registrado no mesmo período por João Amoêdo (Novo), que aumentou em 373% sua rede de seguidores, acompanhado por Guilherme Boulos (265%) e Ciro Gomes (212%).

Ainda assim, os números de seguidores de Bolsonaro são superiores aos três, que inexistiam na internet e agora estão na plataforma presidencial, enquanto o líder das pesquisas com intenção de votos faz uma campanha de “fertilização online” há pelo menos dois anos.

“Neste momento, ele estar fora das ruas não apresenta dificuldades, pois seu eleitor já está cristalizado. Pode haver uma outra força que é a militância espontânea, o que de fato importa agora. Essa militância está tomando a frente da campanha”, avaliou o especialista em marketing de redes da ESPM, Gabriel Rossi.

Para o professor, faltando pouco mais de três semanas até o primeiro turno, o poder de captação dos indecisos é algo que Bolsonaro ainda pode alcançar. Segundo Rossi, o boca a boca vai ser fator de peso na definição dos candidatos que irão ao segundo turno.

“O que acontece agora são as pessoas influenciando outras. Bolsonaro ainda tem a chance de crescer nos indecisos, algo que os outros candidatos, principalmente da esquerda, terão dificuldade.”

No ataque que sofreu na quinta-feira (6), Bolsonaro foi o candidato mais mencionado no Twitter, segundo a Diretoria de Análises de Políticas Públicas da FGV. Nas 16 horas seguintes, foram mais de 3,2 milhões de menções a ele, fora a exposição na televisão.

O presidente do Instituto Mapa, José Nazareno, explica que existem dois tempos na disputa, que são o digital e o analógico. Nesses períodos, acontecem os movimentos de sensibilização, motivação e mobilização do eleitorado, fase em que todos os candidatos se encontram. Por já ter trabalhado bem as duas etapas anteriores, o candidato do PSL consegue alguma folga neste turno.

“Ele conseguiu isso tudo em dois anos de fertilização digital e agora começa a sofrer no meio analógico. Com o atentado ele conseguiu mídia espontânea e supriu o tempo inexpressivo que tem”, indicou.

Mulheres contra Bolsonaro

Na última semana, um grupo espontâneo denominado “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro” surgiu no Facebook. Até o fechamento desta edição, o grupo contabilizava quase 900 mil internautas ativas e mais de 1 milhão convidadas. Este é um fato novo e que deve pesar na campanha do PSL, já que Geraldo Alckmin (PSDB) vinha em uma campanha de desconstrução de seu adversário pelo eleitorado feminino.

“Com toda a certeza que isso pode causar impacto, principalmente se for bem direcionado. Isso injeta uma pimentinha no jogo da internet, já que é um numero considerável de mulheres. Alguns estudos indicam que a mulher é o publico que melhor usa a internet e isso pode influenciar muito a disputa”, disse Rossi.

O presidente do Instituto Mapa segue a mesma observação e lembra que o voto feminino historicamente demora a ser definido e a rejeição a Bolsonaro tende a aumentar, caso os atos marcados para o último final de semana deste mês ganhem força e representação.

“Esses manifestos podem aumentar a rejeição dele. Bolsonaro tem uma intenção de votos na frente dos outros, mas uma rejeição que o limita. Vamos esperar para ver como um movimento dessa natureza pode aflorar esse lado difícil dele e como os outros candidatos vão explorar esse movimento feminino”, completou.

Internamente a campanha está dividida entre usar a fragilidade do presidenciável e humanizá-lo contra à ideia de que é uma pessoa violenta ou colocá-lo como um linha dura, que foi o impulsionador da figura do deputado. Gabriel Rossi aposta que ele irá encontrar um meio termo entre a pacificação e o pulso firme.

“Ele precisa ser coerente com o ‘arquétipo do herói’ que ele construiu. Mostrar que ele sobreviveu ao atentado é importante, que ele lutou contra a morte para mudar o Brasil. Também acho que é preciso amenizar, mas ele pode encontrar um meio termo.”