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A união dos partidos de centro-esquerda, puxada pelo PDT de Ciro Gomes, pode causar um isolamento do PT, caso o partido siga com a ideia de hegemonia nesse campo. A guinada sem os petistas, porém, deve representar uma nova forma de fazer oposição “construtiva”, caso o discurso dessas lideranças vingue.

Numericamente, a bancada com PDT, PSB e PCdoB congrega 69 deputados. Existe a expectativa de unir o PSOL, que elegeu 10 deputados e o PPS, com 8 parlamentares. No Senado, onde a frente já está mais avançada, a junção dos três partidos iniciais, em conjunto com a Rede, PPS, PHS e PRP deve alcançar 17 senadores.

A pregação das lideranças mais ativas, como o senador eleito pelo Ceará, Cid Gomes (PDT) e o reeleito Randolfe Rodrigues (Rede-AP), incide no combate à corrupção, ao rigor com as contas públicas e a defesa ao Estado democrático de direito. Ambos os citados falam em oposição que não será “sistemática, nem situação automática”.

Randolfe reuniu senadores na noite de quarta-feira (21) para discutir e alinhar o papel que essa frente terá no Senado. Ficou de elaborar um documento com os princípios norteadores desse aglomerado e deve tornar pública essa carta no início de dezembro.

O PT, por outro lado, segue apostando no peso que sempre teve dentro da esquerda brasileira, sobretudo por ter sido o único partido do bloco que conseguiu governar o País por quatro mandatos consecutivos. Na quarta (21), a sigla se reuniu em Brasília para discutir o processo eleitoral e definir os próximos na oposição.

Fernando Haddad, que foi derrotado na disputa presidencial, mas teria emergido como “grande liderança do partido”, afirmou que discutir um bloco oposicionista sem os petistas é “miopia” ou “esquerda que não é tão esquerda assim”. Durante coletiva de imprensa, após o encontro, o ex-prefeito de São Paulo comentou que o partido estará empenhado em montar um bloco de siglas que lutem pelos “direitos civis” e estejam acima de “simpatias e antipatias pessoais”.

Integrantes da frente sem PT, no entanto, observam que a proposta dos irmãos Gomes é mais factível do que lutar pela soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Essa Frente é, antes de tudo, pragmática. Partidos como a Rede podem sumir, por conta da cláusula de barreira. Para além disso tem um tom de ser oposição ao governo, mas não será ‘oposição inconsequente’, contra tudo e isso é muito positivo”, comentou o sociólogo da Universidade Mackenzie, Rodrigo Prando.

Ele lembra que a lei eleitoral permitirá a migração de parlamentares que tenham sido eleitos, mas seus partidos não tenham cumprido a cláusula de barreira. A expectativa é de que o PSL, segunda bancada na Câmara com 52 cadeiras, acabe inflado e ultrapasse em número os 56 deputados que o PT elegeu em outubro.

“Essa conjugação de partidos de esquerda que façam uma oposição diferente, é uma melhora substancial no discurso da esquerda”, ponderou o professor do Mackenzie.

Deserções

O último ciclo do Congresso revelou uma prática comum de deserções e traições partidárias. Sobretudo em temas caros aos partidos, como o impeachment, a votação da lei que instituiu o teto de gastos, ou até mesmo as denúncias contra Michel Temer, mostraram que detentores de mandato votam conforme suas próprias orientações políticas.

A frente sem o PT pode ganhar espaço se conseguir manter coesão e atrair apoios para além de seus cercados, o que não é difícil tendo em vista que inevitavelmente terá o apoio de setores do MDB e do PSDB, agora no novo “Centrão”.

“Essas deserções sempre vão existir. Independente da questão numérica, qualitativamente essas lideranças como Ciro, Marina Silva, Roberto Freire e Cristovam Buarque podem significar aos olhos do eleitorado uma mudança na prática de oposição. A consequência disso é o PT perder força. Não desaparece, mas perde força”, alinhou Prando.

Sem baixar a guarda, o PT anuncia que fará uma oposição contra o que ferir o povo brasileiro, mas tudo depende da pauta “que ainda nem está colocada”, disse Haddad.