Publicado em

São Paulo - Uma mudança no perfil da população brasileira pode ser responsável pelo aumento no número de cremações nas grandes regiões metropolitanas do País.

Se antes o procedimento era mal visto pela população, hoje a modalidade que transforma o corpo do falecido em cinzas já responde por 20% dos enterros.

O aumento tem chamado atenção dos crematórios, que buscam se preparar para atender a demanda crescente. Hoje, no Brasil, existem aproximadamente 80 empresas particulares que oferecem o serviço, além de algumas prefeituras, como a de São Paulo, que concedem o atendimento público.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep), José Júnior, observa-se uma tendência mundial na escolha pela cremação, ao invés do enterro convencional.

"Nos Estados Unidos, por exemplo, em duas décadas o percentual de cremações passou de 20% para 50%, e isso deve aumentar ainda", conta ele.

Outro país acostumado a este tipo de cerimônia é o Japão, onde 98% das pessoas são cremadas após a morte. Nas grandes cidades brasileiras, segundo ele, é possível que o índice chegue a 40% dentro de alguns anos. "No entanto, não é um quadro que representa todo o território [nacional], pois em algumas regiões, como a Norte, por exemplo, praticamente inexiste o serviço", aponta.

Falta de espaço

Uma das explicações para o aumento da opção das famílias pelas cremações pode ser considerada a questão da falta de espaço nos cemitérios, além do alto preço dos jazigos - espaços para colocar os corpos. Estes ainda contam com outros gastos, como as tarifas de manutenção e outras taxas.

Uma outra perspectiva a respeito da maior procura pela modalidade que pode ser argumentada, diz respeito ao desapego religioso das populações em países considerados laicos. "Parte considerável das pessoas que hoje optam pela cremação é devido ao preço mais barato, principalmente nos crematórios municipais. Outra parte, em torno de 30% a 40%, escolhe pela convicção do desejo demonstrado em vida pelo falecido. Ainda tem aquelas que buscam um serviço de qualidade", afirma o secretário adjunto da Associação Cemitério dos Protestantes (Acempro), Franz Schmidt.

A associação cuida, por exemplo, do cemitério e crematório Horto da Paz, na Região Metropolitana de São Paulo. De acordo com Schmidt, hoje as cremações realizadas no local respondem por 40% da receita do complexo. "Só no ano passado, o faturamento do crematório aumentou 21%, contra 4% ao considerarmos todo o espaço, que inclui também o cemitério e os velórios", aponta.

Vila Alpina

Outro local que tem observado crescimento no número de incinerações é o crematório da Vila Alpina, na zona leste da capital paulista. Lá, o serviço é realizado pela Prefeitura de São Paulo, que instituiu através de lei, ainda em 1967, a prática da cremação a outorga para terceiros por concessão de serviços. Com o decreto, empresas particulares estão proibidas de oferecer o serviço de cremação na cidade.

Segundo o engenheiro e advogado Frederico Jun Okabayashi, diretor do Departamento de Cemitérios do Serviço Funerário do município de São Paulo, os registros apontam crescimento de quase 100% entre os anos de 2008 e 2014 no número de cremações da cidade. Ao todo, cerca de 130 mil corpos já foram incinerados desde que o crematório da Vila Alpina passou a oferecer o serviço.

"Em 2014, realizamos 9.035 cremações. Em 2013 havia sido 8.517. Apenas no primeiro trimestre deste ano foram realizadas 2.317", aponta o diretor. Se o ritmo for mantido, mais uma vez o crematório vai registrar crescimento no número de cremações ao final de 2015.