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SÃO PAULO - Um milhão e duzentos mil alunos. Este foi o público de uma das aulas do Descomplica, startup que desde 2011 não para de crescer e atrai estudantes e investidores com sua metodologia "maluca". Os professores já realizaram aulas de química num balão e de biologia no Pantanal, por exemplo, para tornar a explicação mais fácil. A startup de aulas de cursinho já recebeu cerca de US$ 14 milhões em investimentos.



Além dessas aulas dinâmicas, o valor da mensalidade também é um diferencial da startup, já que custa bem menos que um cursinho tradicional. Há planos por menos de R$ 250 por ano.



Diferente de seus concorrentes, que oferecem cursos sobre matérias específicas ou atuam com gamificação, o posicionamento do Descomplica é como se fosse uma instituição de ensino.



A empresa surgiu em 2011, quando o engenheiro e professor de física Marco Fishben resolveu unir educação e tecnologia. Desde o início a ideia foi bem recebida pelos investidores. "Já começamos recebendo investimento anjo", diz.



Ele lecionava num cursinho para vestibular, o pH, no Rio de Janeiro. Fishben observou que esse mercado estava crescendo muito na década de 90, juntamente com a tecnologia, e pensou em aliar essas duas especialidades.



Embora o carro-chefe seja as aulas de preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), a startup também é procurada por estudantes que são novos na faculdade e estão com dificuldade para relembrar conceitos da escola. O público mais jovem, do ensino fundamental e médio, também usa a plataforma para tirar dúvidas cotidianas.



De acordo com Fishben, o modelo de negócios desenvolvido em 2012 é o mesmo que dura até hoje, baseado em pagamentos mensais. "Esse modelo de assinatura faz sentido para os estudantes: é igual clube e escola de inglês, por exemplo". Ele ainda cita a recorrência como um ponto positivo das mensalidades.



Segundo ele, outra diferença é o fato do Descomplica ser uma instituição de ensino, ou seja, além das aulas ao vivo e gravadas (são 30 mil horas de conteúdo pré-gravado), a startup carioca possibilita também a interação direta entre alunos e professores, com correções de redações e monitorias, para dúvidas específicas dos estudantes.



Fishben destaca também o modelo de negócios, com foco total no público final, como uma coisa diferente no setor. "Somos B2C (empresa que atende diretamente o consumidor). Não temos parceria com governo ou escolas. Às vezes algumas escolas entram em contato para comprar nosso produto, mas eles entram no nosso site e adquirem como se fossem alunos", diz.



Método de ensino



De acordo com o conselheiro da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), Renato Bulcão, o diferencial está em trazer problemas abstratos para o cotidiano dos alunos. "É muito bom mostrar aos alunos que eles estão sujeitos a conhecimentos embutidos em atividades como, por exemplo, andar de automóvel ou skate".



O dirigente destaca que o imediatismo é outro fator que diferencia as plataformas online de ensino. "O aluno não tem vontade de esperar uma semana para entender um conceito", afirma. Com as aulas gravadas, no caso do Descomplica, o estudante pode tirar a dúvida no momento que desejar.



Crescimento



Apesar de não abrir números de faturamento, por determinação do conselho, Fishben assegura que a startup dobrou de tamanho no ano passado e pretende manter esse índice neste ano. Além disso, ele faz questão de salientar que estão crescendo sob números já altos no mercado.



Entre pagantes e não pagantes, cerca de 30 milhões de estudantes já tiveram alguma experiência com os conteúdos do Descomplica. Para aguentar esse volume de acessos, a startup usa os serviços em nuvem da Amazon, conhecido como AWS. Inclusive em março a gigante norte americana usou o Descomplica como um case de sucesso.



Para continuar inovando é necessário, evidentemente, capital. A startup já passou por três rodadas de investimento, todas de fundos do Vale do Silício, sendo a última de US$ 7 milhões. Isso possibilitou a contratação de novos colaboradores. O quadro de funcionários já conta com 200 pessoas.



Além de investir na equipe, o empreendedor passou a adquirir outras startups de educação. O Master Juris e o Master OAB agora fazem parte da holding Descomplica. "São mercados diferentes, mas atuam no mesmo modelo de mensalidade", explica Fishben.



Reconhecimento



Embora atue somente no mercado brasileiro, o Descomplica foi considerada pela revista norte-americana Fast Company (a mais importante no mundo do empreendedorismo) como uma das startups mais inovadoras da América Latina.



A internacionalização é um dos pontos que o fundador vislumbra para o futuro da empresa. "Faz sentido em médio prazo entender quais produtos conseguimos levar para outros países; mas não esta no nosso plano de negócios em 2017", disse Fishben.