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O economista e sócio majoritário da BR Investimentos, Paulo Guedes, defendeu ontem a adoção de uma moeda única na América do Sul, que denominou "peso-real". Segundo ele, mais do que essa moeda, se criaria uma agenda de modernização no Brasil. "A social-democracia tem muita dificuldade de fazer as reformas necessárias. Temos uma legislação trabalhista obsoleta, encargos previdenciários excessivos e precisamos de uma reforma fiscal. Com a integração, seríamos obrigados a rever tudo isso", garantiu Guedes durante apresentação no 21º Fórum da Liberdade, realizado em Porto Alegre pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE).

Atualmente, para adquirir produtos de nossos vizinhos, um processo complexo tem de ser seguido. O importador brasileiro precisa efetuar depósito em um banco internacional e pagar o exportador em dólares. Depois os dólares chegam nesses países e são convertidos na moeda local. Da mesma forma, chegam ao Brasil e são convertidos em reais. O mais preocupante, no entanto, é que se não houver dólares, como no caso da crise cambial de 2002, não há comércio bilateral. Guedes elenca três grandes blocos que se baseiam em três moedas. "Hoje há uma zona de influência do dólar, que é a América do Norte, tem a área do euro, na Europa, e a região asiática, com a China. Enquanto isso Brasil, Paraguai e Argentina ficam cada um no seu pequeno esforço, em pequena escala. Vamos fazer convergir as políticas tributarias e as políticas trabalhistas", afirma. "Já que do ponto de vista geopolítico o presidente Lula tem sido tão hábil e ele já firmou uma liderança no continente, essa política pode se substancializar para a formação de uma área econômica mais forte", completa.

A idéia de Guedes, que foi um dos fundadores do Banco Pactual, é compartilhada pelo deputado federal Ciro Gomes (PSB/CE). "Essa idéia [moeda regional] estava originalmente pensada, mas fomos interrompidos pela roda da dolarização. Mais importante não é entender a moeda regional. Essa é a consumação de um esforço de convergência das condições de empreender. Se você faz isso, temos uma dinâmica extraordinária que dará uma força de coesão na América do Sul. Além disso, dará sinais de que aqui é um megamercado regional e vai coibir as ações generalistas", diz Ciro que também esteve no Fórum da Liberdade.

Para Guedes, esse movimento é essencial para o País frente à globalização. "Nós não vamos escapar de um aspecto da globalização que é justamente a intensificação da competitividade, principalmente porque há três milhões de euro-asiáticos que entraram no mercado de trabalho global e eles vem com baixos encargos sociais e trabalhistas. Nós já estamos sentido isso", afirma o economista ao dar exemplos desses efeitos.

"A primeira informação é agradável, que é o preço das commodities lá em cima. Mas a segunda informação é do cambio baixo, mostrando que os brasileiros estão mais ricos com a moeda mais forte. Na medida em que a moeda vai descendo, vai deixando exposta nossa fragilidade em vários setores, como moveleira, calçado, têxtil, entre outros setores. Essa vulnerabilidade começa a aparecer e aí precisamos pensar em modernização".

Tanto Ciro quanto Guedes acreditam que uma moeda única daria mais poder de negociação à América do Sul. "Eu acho que para o Brasil seria importante, e para a América Latina inteira. Por um lado recuperaríamos a Bolívia, Venezuela e o Equador, que estão indo para uma direção que afundou. O liberalismo clássico também afundou por não reconhecer esse traço da sociedade que é a solidariedade", opina Guedes.

Para Ciro, com a formação de um bloco único, "nós [o Brasil e os países da América do Sul] entraremos em coordenação para a criação de uma moeda e realmente um mercado comum. Isso significa que teremos que coordenar nossas políticas fiscais, monetárias, especializar a política industrial e o comercio exterior, combinar a política comum de relacionamento com terceiros mercados, combinar regime previdenciário de mobilidade da força de trabalho. Isso é trabalho para 10 anos no mínimo, mas a dinâmica é incrível", avalia.

Crise

Para Guedes, a crise americana é "séria e não vai acabar tão cedo". O economista diz que "há pelo menos seis anos os Estados Unidos jogam dopados na economia" e que esse vigor artificial gerou a crise. "A nova moeda mundial é o Euro. O dólar perdeu 50% de seu valor desde que os americanos começaram a se dopar", afirma.

Para ele, um dos principais culpados por essa situação é o ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos), Alan Greenspan. "Ele [Greenspan] achou que as pressões só ocorreriam nos próximos 15 anos. Isso não ocorreu, ele faz parte do crime e a história irá julgá-lo", avalia. "O grande desafio de hoje é evitar a implosão completa. O capitalismo jamais será o mesmo e não sabemos o que vem pela frente. Porém, tem sempre um chinês querendo vender mais barato", brinca.